"Talvez você tenha chegado num ponto muito alto. Onde sua casa queimou sem que você percebesse e as multidões deram vez ao vácuo montanhesco da solidão. Mas as perguntas continuam. Aaahh não, elas nunca param! E mesmo com estas ruínas e pedaços pendurados, você ainda se pergunta se esta é a hora de insistir ou deixar morrer. "
Ele queria uma fórmula, um conceito. Eu inovei todos os ares e respirei por ele, quando mal conseguia por mim mesmo. Agora eu não posso dar dicas, mostrar flechas, entregar-lhe um mapa. Eu já dei mais de mim do que daria pra qualquer um, normalmente. Mas nesse tempo, meu eixo entre a normalidade e o paradigma se confundiu bastante. Eu já nem sei mais o que eu queria. E claro, o porquê. As perguntas, sempre elas. Me paralisam. Me consomem. E no silêncio da ausência de resposta, nossas mãos se desprenderam, e seus olhos perderam o sentido pra mim. Eu o atropelei, antes que me ferisse. Eu não tinha uma segunda chance, não podia errar de novo. Então, ataquei.
Algumas dúvidas do passado devem ser enforcadas, antes que elas retornem. Em alguns momentos até nos iludimos com a possibilidade de reatar e consertar gestos e ações que não foram bem sucedidas. Mas as coisas não têm que dar sempre certo. Não precisam estar corretas. Nem sentido elas precisam ter. E persistir numa má escolha, te leva pra um caminho irremediável. Seja forte! Seja aquilo que você sempre sonhou. Só dessa vez, não dê as costas. Não ignore. Encare. Pela última vez. Dê a pá de areia que esta vida necessita. Afogue esta ansiedade. Beba. Consuma-a. Entre no próximo bar e dê um jeito.
Todas essas palavras que eu gritava, emudeceram enquanto os olhos reabriram pra mim, e as mãos tocaram as minhas, de novo.
Eu comi as rosas mesmo não saboreando-as, me embriaguei de esperanças como nunca tivera feito, e fiz desejos lançados a algo maior, soberano, transcendental. Queria uma voz que me ouvisse. Naturalmente isso me incomodaria. Mas eu quis experimentar a sorte infantil, o contragosto desse duelo com a verdade.
Mas quer saber? Eu sou Clive. Não preciso de jogos, nem de duelos. Não tenho que provar nada, nem a mim mesmo. Deixo que meus medos falem alto, grito, corro, bato, xingo. Sou quente como as lâminas de uma espada que ringem no chão, em plena guerra. Sou aço e rocha. Eu bebo os problemas e os amores. E se duvidar, ainda brindo com um desconhecido antes de devorá-lo. Eu mostro a face da sedução, do convite imprudente, sacana. Eu mordo lábios, e deles nunca mais saio. E se quiseres amor, ache um motivo para gostar de si mesmo, porque eu transbordei minhas fichas na última máquina, peguei um táxi sem dinheiro pra pagar, e ainda consegui uma noitada com o motorista. Porque eu abuso das possibilidades e vejo sexo em quase tudo. Então se você quiser alguém de fato, venha mais perto e lamba meu pescoço, porque hoje eu serei o seu amor e o seu benzinho. Só não espere considerações e um anel de compromisso.
Porque minhas noites são cheias, mas pela manhã minhas palavras são vazias.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Nono - Em Cada Pedra Dessa Rua, Há Um Pouco de Mim
"E naquele momento, quando decidi que não queria mais voltar para casa, percebi que pela primeira vez não tinha tomado essa decisão por ser mimada ou fugir dos relacionamentos que eram importantes. Naquele momento percebi que o objetivo não era "concertar" todos relacionamentos conturbados que eu tinha, e sim apenas seguir em frente. Não ficar remoendo ou tentando remendar as coisas, porque na verdade tudo nessa vida tem a oportunidade certa, e não adianta insistir, pelo contrário, insitir no que não foi é ser masoquista.
Aquilo era sobre eu percebendo que abrir mão de um relacionamento que me fez mal era a prova de que pela primeira vez estava sendo a menina corajosa que sempre quis ser."
Pandora, Desejo.
Gosto deste trecho acima. É de um livro. Muito bom por sinal. Às vezes acho que sou mais um personagem nesta história. Porque o retrato da vida tem vários ângulos, e o livro 'Desejo' dá uma porção deles. Onde eu deveria estar?
Triste melodia carregavam aquelas árvores. Adentrei numa rua coberta por elas. Folhas grandes e vistosas. Abandonadas no silêncio das suas cores. Banhadas pelo sol e a lua, respectivamente. Uniformes. Formavam uma corrente pela qual eu queria ser embebido. Meus passos quase ecoavam por lá. A rua tinha pedras avermelhadas e deformadas. As calçadas tinham bancos acinzentados que na certa assistiram diversas lágrimas e beijos. Telespectadores das vidas que por aqui desfilaram. Eu era o novato. Mãos vazias. Bolsos vazios. Histórias a escrever.
Sentei na beira da calçada. Tinham algumas formigas por perto que marchavam categoricamente em fila. Demorou pouco para que o sol adormecesse. Os últimos raios alaranjados foram uma pintura incomum. Passei a mão pelo cabelo e deitei no banco. A nostalgia me atingiu como um cão que corre para pegar o osso que o dono lançou. Brincadeira boba que os caninos agradecem com um balançar de rabo. Deve ser sarcasmo deles.
Eu me alimento de dor. Mais do que simples quebras de contrato, eu me deleito com o sofrimento. Eu entro nas vidas e as manipulo. Com facilidade. Logo todos jogam o meu jogo. Psicopatia é meu café da manhã favorito. Talvez seja uma dose egocêntrica que eu engulo tão rápido. Só quando protagonizo (ou antagonizo) vidas e histórias, minha alma sossega com paz. Uma paz fajuta, comprada. Mas de que importa? Tenho alma teatral. Construo personagens e facetas, e logo faço uma festa e celebro todos estes temperamentos. É enlouquecedor... Mas foi cada fraqueza que roubei dos labios beijados pelo meu cinismo que foi usada para a construção deste baile de máscaras.
Agora eu seria Clive. A faceta ideal pra lidar com as desilusões e ilusões de desamor. Sou vítima da minha própria distimia. Auto-medico cada batida desse coração obscuro com goles de tequila. Porque a noite é o meu quadro em branco, e cada dia é uma nova inspiração para pintá-lo. Minha aquarela de mentiras é um arsenal infindável. E o último gole vocês assistiram. Vocês jamais saberão a verdade absoluta (se esta existir). Porque só mostro os lados mais rasos do meu mundo. E até onde estariam dispostos a adentrar?
Mas caótico ou supérfluo, o personagem é sempre uma busca por auto-identidade. Ou simplesmente uma atitude desvirtualizada da cena principal. Eu não tenho limites. Atuarei até onde os aplausos me seguirem. Mas para isso, preciso arrancar as partes que ainda me acorrentam ao amadorismo. Porque laços são perdas de tempo artística. Só quando libertar-me do passado poderei nadar pelas correntezas do meu corpo.
O escuro é mais aconchegante. Quando o peso, o tipo de cabelo e as mentiras provavelmente pouco importam. Se não pode ver, não há. Então beberei estas farsas e estes 'amores' quebrados, antes que eles pensem que eu os quero. Porque facilmente eles confundiriam meu sorriso com alegria, bem como um olhar com desejo. Mas não há nada que eles possam me oferecer que eu não consiga arrancar de uma maneira mais brusca. Não quero estes sentimentos pacificados e ofertados. Quero puxar, brigar, pegar à força. Porque será nesse momento hostil que eles me entregarão a verdade. Sangrenta, cruel, como deve ser. Porque no momento eu to preferindo dores e uma garrafa de whisky do meu lado do que esses 'amores eternos' que terminam pela manhã.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Oitavo: Se fosse Apenas uma Carta, Talvez as Lágrimas Calassem
Eis a carta que deixara antes de sair:
"
Perante todos os acontecimentos, eu ainda não me encontro em lugar algum. A vida vai passando, os fatos se repetem. Outros pioram. E raramente algo muda positivamente. Mas talvez altere sim. E mesmo que seja muito mais fácil erguer paredes e muralhas ao redor, isolando-se dos problemas, logo elas sufocam, e tudo o que resta é um novo mundo isolado. Ilhado. E talvez tarde ou não, percebe-se que tu se tornou espectador na sua própria vida. É possível aplaudir pessoas, e baixar a cabeça. As decepções se acumulam. Os problemas crescem. As ilusões te inundam, te inflam. E logo, sem saber nadar nas mentiras criadas por si próprio, te afogam. Sem resgate à vista, tenta-se atitudes questionáveis. Atentados. Uma dose a mais de culpa e medo. Solidão em drink duplo. E por mais que tu queiras companhia, não consegue. Tu és agora um repelente natural às pessoas e à vida. E tua mente tornou-se tão inconstante e inóspita, que o mundo todo perde o sentido. A beleza torna-se algo abstrato (mais do que antes) e os antigos métodos escapistas falham. Tu só queres uma companhia. Alguém pra reclamar da vida, pra cantarolar, mesmo que desafinando, pra abraçar e sentir o aroma das batalhas, os cabelos que tocam teus olhos e as mãos, que carregam a história dos confrontos, dos duelos e das páginas amareladas dos livros. O aroma de baunilha do passado te beija, numa despedida. E mesmo sabendo das dores (que virão), tu ainda desejas ter um laço imaterial e inexplicável com alguém (ou alguéns). Uma parceria confiável, para juntos visitar mundos inabitados e nadar pelas estradas montanhosas da noite. Bastaria um pouco menos de solidão, e talvez a vida se colorisse com sabores e aromas mais amenos. Nem precisaria ser tão real. A fantasia já seria excitante o bastante. Mas agora o pesar no meu peito palpita. As lágrimas emudeceram perante o eco que antes eclodia no meu peito. E todas as piadas perderam a graça. Porque por mais que eu quisesse, implorasse, despisse de véus e armaduras, chorasse, lutasse... Seria tarde. Agora a solidão eterna encontra-se ao meu lado. E nestes olhos velados pelo silêncio adormecerão os contos que jamais foram narrados e as poesias jamais declamadas. É o fim da canção do aprochego. Da esperança.
Os dias findaram. E os sonhos também.
Ps* Perdoe-me pelos possíveis erros ortográficos, e a falta de jeito. Isso tudo deveria ser mais natural e mais fácil, mas agora eu percebo que sou mais do que nunca o Clive. E eu só vejo as coisas ruins."
"
Perante todos os acontecimentos, eu ainda não me encontro em lugar algum. A vida vai passando, os fatos se repetem. Outros pioram. E raramente algo muda positivamente. Mas talvez altere sim. E mesmo que seja muito mais fácil erguer paredes e muralhas ao redor, isolando-se dos problemas, logo elas sufocam, e tudo o que resta é um novo mundo isolado. Ilhado. E talvez tarde ou não, percebe-se que tu se tornou espectador na sua própria vida. É possível aplaudir pessoas, e baixar a cabeça. As decepções se acumulam. Os problemas crescem. As ilusões te inundam, te inflam. E logo, sem saber nadar nas mentiras criadas por si próprio, te afogam. Sem resgate à vista, tenta-se atitudes questionáveis. Atentados. Uma dose a mais de culpa e medo. Solidão em drink duplo. E por mais que tu queiras companhia, não consegue. Tu és agora um repelente natural às pessoas e à vida. E tua mente tornou-se tão inconstante e inóspita, que o mundo todo perde o sentido. A beleza torna-se algo abstrato (mais do que antes) e os antigos métodos escapistas falham. Tu só queres uma companhia. Alguém pra reclamar da vida, pra cantarolar, mesmo que desafinando, pra abraçar e sentir o aroma das batalhas, os cabelos que tocam teus olhos e as mãos, que carregam a história dos confrontos, dos duelos e das páginas amareladas dos livros. O aroma de baunilha do passado te beija, numa despedida. E mesmo sabendo das dores (que virão), tu ainda desejas ter um laço imaterial e inexplicável com alguém (ou alguéns). Uma parceria confiável, para juntos visitar mundos inabitados e nadar pelas estradas montanhosas da noite. Bastaria um pouco menos de solidão, e talvez a vida se colorisse com sabores e aromas mais amenos. Nem precisaria ser tão real. A fantasia já seria excitante o bastante. Mas agora o pesar no meu peito palpita. As lágrimas emudeceram perante o eco que antes eclodia no meu peito. E todas as piadas perderam a graça. Porque por mais que eu quisesse, implorasse, despisse de véus e armaduras, chorasse, lutasse... Seria tarde. Agora a solidão eterna encontra-se ao meu lado. E nestes olhos velados pelo silêncio adormecerão os contos que jamais foram narrados e as poesias jamais declamadas. É o fim da canção do aprochego. Da esperança.
Os dias findaram. E os sonhos também.
Ps* Perdoe-me pelos possíveis erros ortográficos, e a falta de jeito. Isso tudo deveria ser mais natural e mais fácil, mas agora eu percebo que sou mais do que nunca o Clive. E eu só vejo as coisas ruins."
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Sétimo: Solidão é Minha Amiga, Álcool é Minha Vitamina
Como diria Franz Ferdinand "Este fogo está fora de controle", foi o que pensei. Nem nos meus piores pesadelos me permitiria sentir tal apego. Mas como negar? Ela havia me dado um lar, uma nova chance, coisa que pessoa alguma que me conhecia faria. Só mesmo um abraço estranho não parece culpado e cheio de ganância. Pelo menos nos seus primeiros encontros. Quando as almas colidem, e se estranham e entranham, toda a gama de feromôneos que nós, animais selvagens, carregamos, explodem e implodem numa velocidade e voracidade grotesca. Logo uma análise é feita, como prevenção. Um raio X. Mas mais do que isso, repelimos as frutas podres pra manter o jardim a salvo. E dessa vez, como nas outras, eu me senti a pior das espécies.
Eu não consigo diferenciar coisas boas e ruins. Acho que sou inocente demais pra perceber as ofensas. Ou cruel demais, porque desfiro golpes impiedosos. Sou hostil de natureza, um sobrevivente, como já disse. Mas algo latejou no meu peito, quando abraçado em mim, ele disse que não me abandonaria (mesmo após os acontecidos). Eu gelei. Congelei. E até degelaria se fosse um iceberg fraco. Como pode? Por que ele ainda me abraçaria? O jogo não tava certo. Nessa rodada ele devia surtar, chorar, gritar. Perder as estribeiras e me expulsar. Ou simplesmente abrir a porta. Conheço o caminho da sarjeta. Mas eu fechava os olhos, e as luzes e as músicas explodiam uma sinfonia prateada que parecia formar uma estrada. Eu a renego - pensei.
Fiquei por horas sentado na rua. Na praça. Vendo as pessoas com suas vidas planejadas e estabelecidas sobre planos religiosos, políticos e morais. Cada um do seu jeito, achando que tão fazendo a coisa certa. Mas no final, perdem seus valores mais básicos. Atirando-se à fome superficial do ócio e da futilidade ( Por que todos cheiram a sem-vergonhice ). E não há alma neste mundo que me surpreenda. Mas gosto de entrar nos seus jogos mais íntimos e fingir que estou perdendo. É durante a vitória que as pessoas mostram suas caras. Dê poder a um pobre coitado, e ele ordenará que Deus deve lavar suas botas.
Mas ela havia me resgatado, viu-me no meu instinto mais subhumano. Uma raiva descomunal me dominava. Engoli lágrimas e sequei o suor gelado da testa. Pensava em quantos gritos havia bradado naquele silêncio todo.
Será que isso significa algo? - Pensava. Cada sorriso dela me fazia mais crédulo, e eu perdia as forças. Queria morrer naqueles lábios. E como desejo tal morte...
Ele dizia que sou poeta. Andarilho incorrigível, pois estagnar em lugar , seja uma ponte límpida, ou nos braços de amante qualquer tiraria minha excência. Minha inspiração seria a dor e o abandono. Porque da alegria se tira o óbvio, a mentira. Só mesmo da sofreguidão e do fundo da mágoa e abandono é que se extrai a verdade. A fúria. A vingança.
Doía. É o que minha memória guardou. Um momento em que desejei arrancar parte por parte daquela angústia. Acho que ela sabe demais - conclui.
Mas dor maior é o que desconhecia. O desapego. A libertação. Mas sou interrogado pela vida há anos, hei de suportar nova tarefa. E se não vivo, não sinto.
Na manhã seguinte, ela abraçou o travesseiro, resgatando meu aroma de álcool e juventude. Enquanto lia o bilhete que lhe escrevera. E com essa despedida, teve de sentir-se beijada. Meus lábios, para ela, haviam morrido.
Agora estava longe. Longe dela. Longe dele. E mais próximo de mim.
Eu não consigo diferenciar coisas boas e ruins. Acho que sou inocente demais pra perceber as ofensas. Ou cruel demais, porque desfiro golpes impiedosos. Sou hostil de natureza, um sobrevivente, como já disse. Mas algo latejou no meu peito, quando abraçado em mim, ele disse que não me abandonaria (mesmo após os acontecidos). Eu gelei. Congelei. E até degelaria se fosse um iceberg fraco. Como pode? Por que ele ainda me abraçaria? O jogo não tava certo. Nessa rodada ele devia surtar, chorar, gritar. Perder as estribeiras e me expulsar. Ou simplesmente abrir a porta. Conheço o caminho da sarjeta. Mas eu fechava os olhos, e as luzes e as músicas explodiam uma sinfonia prateada que parecia formar uma estrada. Eu a renego - pensei.
Fiquei por horas sentado na rua. Na praça. Vendo as pessoas com suas vidas planejadas e estabelecidas sobre planos religiosos, políticos e morais. Cada um do seu jeito, achando que tão fazendo a coisa certa. Mas no final, perdem seus valores mais básicos. Atirando-se à fome superficial do ócio e da futilidade ( Por que todos cheiram a sem-vergonhice ). E não há alma neste mundo que me surpreenda. Mas gosto de entrar nos seus jogos mais íntimos e fingir que estou perdendo. É durante a vitória que as pessoas mostram suas caras. Dê poder a um pobre coitado, e ele ordenará que Deus deve lavar suas botas.
Mas ela havia me resgatado, viu-me no meu instinto mais subhumano. Uma raiva descomunal me dominava. Engoli lágrimas e sequei o suor gelado da testa. Pensava em quantos gritos havia bradado naquele silêncio todo.
Será que isso significa algo? - Pensava. Cada sorriso dela me fazia mais crédulo, e eu perdia as forças. Queria morrer naqueles lábios. E como desejo tal morte...
Ele dizia que sou poeta. Andarilho incorrigível, pois estagnar em lugar , seja uma ponte límpida, ou nos braços de amante qualquer tiraria minha excência. Minha inspiração seria a dor e o abandono. Porque da alegria se tira o óbvio, a mentira. Só mesmo da sofreguidão e do fundo da mágoa e abandono é que se extrai a verdade. A fúria. A vingança.
Doía. É o que minha memória guardou. Um momento em que desejei arrancar parte por parte daquela angústia. Acho que ela sabe demais - conclui.
Mas dor maior é o que desconhecia. O desapego. A libertação. Mas sou interrogado pela vida há anos, hei de suportar nova tarefa. E se não vivo, não sinto.
Na manhã seguinte, ela abraçou o travesseiro, resgatando meu aroma de álcool e juventude. Enquanto lia o bilhete que lhe escrevera. E com essa despedida, teve de sentir-se beijada. Meus lábios, para ela, haviam morrido.
Agora estava longe. Longe dela. Longe dele. E mais próximo de mim.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Sexto: Eu Encanto, Seduzo e Estrago Tudo
Sentia-me agora como um rato que passara sua vida entre os esgotos, achando que fazia grande coisa, e de repente encontra uma casa aconchegante e sutilmente se convida pra entrar e ficar. Ainda que camuflado, agindo sob as penumbras. Mas um novo lar é um novo mundo a ser descoberto. Mesmo que sob circunstâncias questionáveis, agora eu era o rato, que não queria mansões ou palcos com holofotes. Tava em busca de uma cabana bem vagabunda. Um quiosque. Um sobrado. Queria só ir entrando, me avizinhando, sem ser notado. Queria ser o rato durante o dia, e à noite o artista.
Foi nessa andança então que a conheci. O vento fazia meu cabelo cobrir os olhos (engraçado como sempre venta pro lado oposto ao do meu cabelo). Eu mal tinha engolido toda aquela fase que se sucedera (acho que nunca engolirei), e já tinha parado num boteco pra ver se a tequila me ajudava a degustá-la. Em vão.
Escorei-me na fronte de uma ponte, não das mais novas ou das mais belas. Não era como um outono de filme hollywoodiano. Mas pontes servem para interligar dois lados de quaisquer coisas. E eu me encontrava bem no meio.Tinha um lago escuro que parecia morto. Estacionado abaixo dela. Eu tentava me reconhecer pelo reflexo.
E lá estava ela. Parecia entender meu olhar, quando os dois colidiram, e quando me abraçava, tocava-me de verdade, como nunca antes sentira. Não tinha dó. Era a bonança que eu precisava pra iluminar toda essa tempestade que eu sou.
Ele deu-me um novo lar e mostrou-me cores e sabores inéditos. Acrescentou aromas únicos aos próximos dias. Algo nas minhas palavras tortas o surpreendia. E quando ele sorria algo em mim doía. Deus, como eu queria aquela dor sempre...
Era a oportunidade que eu precisava (embora não merecesse). Diferente das outras vezes, não queria estragar tudo. Às vezes até sentia algo real. Algo vivo. Mesmo sóbrio, distinto, limpo. Ela me fazia dormir, e acordar com vontade de vê-la. Se eu fosse um dançarino, sapatearia por ela, e ressoaria canções para aquecê-la. Agora, quando fechava os olhos, aquele turbilhão de vozes que me recepcionara na cama, após os acontecidos, havia adormecido.
Mas naquele dia, eu havia reencontrado as armas do passado. E ao chegar em casa e ver-me encolhido ao lado da cama, como ladrão que tenta esconder o furto, ele perdeu o eixo. Achou absurdo, incompreensível. Diferente do que vocês julgarão, eu não atento contra a vida. Acho que eu desafio algo maior. Algo que ainda busco. Algo além desses dias programados. Mas eu era barco sem rota mesmo. Toda a embarcação de raiva, frustração, indiferença e medo que eu carregava era como um trem desgovernado. Cada batida era um novo teste. "Sadomasoquista?", questionaram certa vez. Mas sexo e dor são só um vestígio da vida (ou do fim de semana).
Ao vê-lo entrar no quarto, a lâmina escorreu entre os meus dedos e caiu, ecoando uma catedral de culpa por todo lado. Desviei o olhar. Ele ajoelhou-se e tentou extrair dos meus olhos bronzeados alguma resposta. Acho que o seu castelo desmoronou neste momento. Beijou-me. Tentou abraçar, como um baú que guarda todo o passado numa ilha. Algumas lágrimas petrificaram, mas outras deixei brotar. Não queria ser tão cruel. Tão mal agradecido. Mas um rato é só um rato. Espreitando. Noite e dia. Em mansões e em bueiros. E eu... Vocês sabem, sou só o que o medo impede que sejamos. Sou Clive B.
Ela sussurrou "Eu te amo".
Eu disse "Obrigado".
Ele disse "Por que você faz isso?"
E eu disse "Talvez porque eu seja um suicida bem educado".
Foi nessa andança então que a conheci. O vento fazia meu cabelo cobrir os olhos (engraçado como sempre venta pro lado oposto ao do meu cabelo). Eu mal tinha engolido toda aquela fase que se sucedera (acho que nunca engolirei), e já tinha parado num boteco pra ver se a tequila me ajudava a degustá-la. Em vão.
Escorei-me na fronte de uma ponte, não das mais novas ou das mais belas. Não era como um outono de filme hollywoodiano. Mas pontes servem para interligar dois lados de quaisquer coisas. E eu me encontrava bem no meio.Tinha um lago escuro que parecia morto. Estacionado abaixo dela. Eu tentava me reconhecer pelo reflexo.
E lá estava ela. Parecia entender meu olhar, quando os dois colidiram, e quando me abraçava, tocava-me de verdade, como nunca antes sentira. Não tinha dó. Era a bonança que eu precisava pra iluminar toda essa tempestade que eu sou.
Ele deu-me um novo lar e mostrou-me cores e sabores inéditos. Acrescentou aromas únicos aos próximos dias. Algo nas minhas palavras tortas o surpreendia. E quando ele sorria algo em mim doía. Deus, como eu queria aquela dor sempre...
Era a oportunidade que eu precisava (embora não merecesse). Diferente das outras vezes, não queria estragar tudo. Às vezes até sentia algo real. Algo vivo. Mesmo sóbrio, distinto, limpo. Ela me fazia dormir, e acordar com vontade de vê-la. Se eu fosse um dançarino, sapatearia por ela, e ressoaria canções para aquecê-la. Agora, quando fechava os olhos, aquele turbilhão de vozes que me recepcionara na cama, após os acontecidos, havia adormecido.
Mas naquele dia, eu havia reencontrado as armas do passado. E ao chegar em casa e ver-me encolhido ao lado da cama, como ladrão que tenta esconder o furto, ele perdeu o eixo. Achou absurdo, incompreensível. Diferente do que vocês julgarão, eu não atento contra a vida. Acho que eu desafio algo maior. Algo que ainda busco. Algo além desses dias programados. Mas eu era barco sem rota mesmo. Toda a embarcação de raiva, frustração, indiferença e medo que eu carregava era como um trem desgovernado. Cada batida era um novo teste. "Sadomasoquista?", questionaram certa vez. Mas sexo e dor são só um vestígio da vida (ou do fim de semana).
Ao vê-lo entrar no quarto, a lâmina escorreu entre os meus dedos e caiu, ecoando uma catedral de culpa por todo lado. Desviei o olhar. Ele ajoelhou-se e tentou extrair dos meus olhos bronzeados alguma resposta. Acho que o seu castelo desmoronou neste momento. Beijou-me. Tentou abraçar, como um baú que guarda todo o passado numa ilha. Algumas lágrimas petrificaram, mas outras deixei brotar. Não queria ser tão cruel. Tão mal agradecido. Mas um rato é só um rato. Espreitando. Noite e dia. Em mansões e em bueiros. E eu... Vocês sabem, sou só o que o medo impede que sejamos. Sou Clive B.
Ela sussurrou "Eu te amo".
Eu disse "Obrigado".
Ele disse "Por que você faz isso?"
E eu disse "Talvez porque eu seja um suicida bem educado".
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Quinto: Sou Meu Próprio Anti-Herói
Agora, mais do que das outras vezes eu só tinha meu ego trincado e minhas expectativas banhadas com meu orgulho (mesmo ele sendo socado e atingido por uma porção de facadas). E não seria mais uma limitação física que me impediria. Engraçado como eu sou mesmo uma contradição. Nunca gosto de músicas na primeira vez que as escuto, mas depois que torno-me dependente, o mundo todo parece vazio antes dela. E vazio sou.
Às vezes se convencer de mentiras é o suficiente. Porque é preciso convencer-se de ser bonito, ou inteligente para sair na rua sem medo de ser ridicularizado ou visto como um burro qualquer. E até mesmo poetas são alienados, porque a atmosfera deles é alta demais pra que um viciado como eu a alcance. E toda vez que abro os olhos, as nuvens cobrem meu céu, e as estrelas tiram folga.
O fato é: Estava acordado, naquela cama, dados devidos acontecimentos, e nada passava na minha mente. Não me achava estúpido nem arrependido. Detesto mensagens motivacionais. Cada um deve lidar com seus próprios problemas. E eu tava acuado demais pra me mostrar indefeso. Ergui-me então.
Rastejei, sussurrei. Eis minha especialidade. Escorar paredes, observar levantes. Apenas um parasita em si mesmo. Uma imagem meramente ilustrativa do que é a desordem. Do que é a vida, sem palco e sem maquiagem. Tão banal que pedia pra que alguém me esmagasse naquele momento. Mas piedade é uma adaga duplamente feroz. Ela te corta por sua carência mas te corta mais ainda pela sua abundância.
De alguma maneira fui embora. Enquanto todos discutiam porquês e hipóteses parti sem minha mala de mão. Como bagagem apenas um extravio de ideias. Sou digno de pena? Sou louco? Sou cheio de codinomes, sou cheio de setas luminosas. Sou cheio de mim mesmo.
São esses lances da vida que eu questiono. Ambiguidades tão insanas que me excitam. Como uma dor que me faz sorrir, ou uma sede devastadora de culpa. Auto-piedade. Dó que eu renego das pessoas. Mas que aceito de bom grato da minha consciência.
Eu sou desgraçado de humor. Não faço piadas, tampouco construo edifícios. Me contento em ficar no meu quarto, consertando coisas, ou simplesmente ajudando a destruí-las.
Não sou protagonista na minha história. O mundo que é. E basta observar (além de só olhar).
Mas agora eu tava livre desse mundo de mansões e arranha-céus. Eu podia ser um monge se raspasse o cabelo, um punk se aderisse ao anarquismo, um homossexual se beijasse-me mais no espelho, um ladrão se roubasse algo além de tempo, um heterossexual se fechasse as portas pro mundo não me alcançar, ou simplesmente um cachorro, e continuar latindo, e continuar coçando.
Eu precisava de um lar. Eu precisava de um subúrbio.
Às vezes se convencer de mentiras é o suficiente. Porque é preciso convencer-se de ser bonito, ou inteligente para sair na rua sem medo de ser ridicularizado ou visto como um burro qualquer. E até mesmo poetas são alienados, porque a atmosfera deles é alta demais pra que um viciado como eu a alcance. E toda vez que abro os olhos, as nuvens cobrem meu céu, e as estrelas tiram folga.
O fato é: Estava acordado, naquela cama, dados devidos acontecimentos, e nada passava na minha mente. Não me achava estúpido nem arrependido. Detesto mensagens motivacionais. Cada um deve lidar com seus próprios problemas. E eu tava acuado demais pra me mostrar indefeso. Ergui-me então.
Rastejei, sussurrei. Eis minha especialidade. Escorar paredes, observar levantes. Apenas um parasita em si mesmo. Uma imagem meramente ilustrativa do que é a desordem. Do que é a vida, sem palco e sem maquiagem. Tão banal que pedia pra que alguém me esmagasse naquele momento. Mas piedade é uma adaga duplamente feroz. Ela te corta por sua carência mas te corta mais ainda pela sua abundância.
De alguma maneira fui embora. Enquanto todos discutiam porquês e hipóteses parti sem minha mala de mão. Como bagagem apenas um extravio de ideias. Sou digno de pena? Sou louco? Sou cheio de codinomes, sou cheio de setas luminosas. Sou cheio de mim mesmo.
São esses lances da vida que eu questiono. Ambiguidades tão insanas que me excitam. Como uma dor que me faz sorrir, ou uma sede devastadora de culpa. Auto-piedade. Dó que eu renego das pessoas. Mas que aceito de bom grato da minha consciência.
Eu sou desgraçado de humor. Não faço piadas, tampouco construo edifícios. Me contento em ficar no meu quarto, consertando coisas, ou simplesmente ajudando a destruí-las.
Não sou protagonista na minha história. O mundo que é. E basta observar (além de só olhar).
Mas agora eu tava livre desse mundo de mansões e arranha-céus. Eu podia ser um monge se raspasse o cabelo, um punk se aderisse ao anarquismo, um homossexual se beijasse-me mais no espelho, um ladrão se roubasse algo além de tempo, um heterossexual se fechasse as portas pro mundo não me alcançar, ou simplesmente um cachorro, e continuar latindo, e continuar coçando.
Eu precisava de um lar. Eu precisava de um subúrbio.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Quarto: Embriagado Para o Início
Se eu fosse um cronista talvez confundisse as pessoas com mais facilidade. É que as ações e futuras reações que são como pedras jogadas numa lagoa, não tem data marcada. Não são previsíveis. Então na véspera do dia 12, lá estava prestes a desenhar uma nova faixa atemporal.
Eu corri. Escondi-me. Pensei ter fugido. Na verdade quando a adrenalina borbulhou até o meu córtex cerebral eu já tinha tomado todas ... As atitudes precipitadas e descabidas que eu poderia imaginar. Foi um estardalhaço. Uma zona de guerra.
Eu disse, no início, que era um soldado refugiado de uma guerra. Mentira. Nunca travei batalha alguma. Sou um desordeiro quase apaziguador. É tão deprimente ser um trovão guardado no bolso, que eu preferia explodir agora. E talvez tudo fizesse algum novo sentido.
Eu queria ter crescido construindo sonhos e cultivando novas imagens inesperadas -- Bem, talvez criando essa mentira um dia talvez eu me convença.
Eu havia perdido. Fui derrotado pela falta de força. Fraqueza é pouco! Sou tão incerto quanto um vagalume bêbado e sem luz. Meus prismas sempre foram invertidos, e quando dei conta, subi os 12 andares tão rápido, que cheguei ao topo caçando oxigênio nas luzes de lá de cima. Joguei-me ao chão e engatinhei, até o parapeito. Eis a ponte dourada que eu sonharia. Traguei mais oxigênio e raiva. Era como um combustível. De olhos fechados as lembranças eclodiam. De olhos abertos, as luzes me hipnotizavam e convidavam para uma dança aromática. Lá de cima me sentia forte, seguro. Mas logo o líquido vermelho que nos une por laços humanos escorria através do meu pulso direito. Banhei-me de glórias, enfim.
Eu disse "eu perdi tudo". Mas que tudo? Jamais havia tido metade de qualquer coisa. Não cultivei uma porção de coisa alguma. Não chorei por dores, não sorri por amores. Era um cão que apenas ladrava, correndo atrás dos carros. Mas se um carro, um dia parasse, eu não saberia o que fazer.
Agora já com o tal fluido rubro banhando e tingindo minha coerência, arriscaria pensar em arrependimento. Mas arrepender de que? Eu pedi para que ele agarrasse-me e não soltasse. E se por ventura soltasse, que levasse embora junto meu ar. E assim o fez.
Tonteei. Sentei. Cabeça baixa, vendo pingar gotas do tempo que minha testa carregavam. Olhei ao redor como uma criança que procura ter certeza de que está sozinha para aprontar alguma. E sozinho estava. Como de costume. Como reconforto. Véspera e dia formaram uma simbiose assintomática na minha consciência, e tudo passou-se depressa. Tão logo.
Recordações, como fotografias me estamparam. De um ontem ilimitado. Garrafas que bebi, desamores que bebi, laços e entrelaços rompidos, inexistentes. O cão se achava bom porque tinha a melhor rua. Mas o cão era apenas um qualquer, que corria como vira-lata, e cheirava como vira-lata. Vítima de si mesmo.
Foi então que após flertar com todos esses espectros (nisso eu era bom), aceitei o pedido, e saltei para a pista de dança, onde o sangue agora parecia mais real, e anestesiava antebraço, ombro e visão. Eu era um cão vagabundo, um dançarino poligâmico, um soldado no exílio e um órfão da vida. Era, agora, Clive B.
Eu corri. Escondi-me. Pensei ter fugido. Na verdade quando a adrenalina borbulhou até o meu córtex cerebral eu já tinha tomado todas ... As atitudes precipitadas e descabidas que eu poderia imaginar. Foi um estardalhaço. Uma zona de guerra.
Eu disse, no início, que era um soldado refugiado de uma guerra. Mentira. Nunca travei batalha alguma. Sou um desordeiro quase apaziguador. É tão deprimente ser um trovão guardado no bolso, que eu preferia explodir agora. E talvez tudo fizesse algum novo sentido.
Eu queria ter crescido construindo sonhos e cultivando novas imagens inesperadas -- Bem, talvez criando essa mentira um dia talvez eu me convença.
Eu havia perdido. Fui derrotado pela falta de força. Fraqueza é pouco! Sou tão incerto quanto um vagalume bêbado e sem luz. Meus prismas sempre foram invertidos, e quando dei conta, subi os 12 andares tão rápido, que cheguei ao topo caçando oxigênio nas luzes de lá de cima. Joguei-me ao chão e engatinhei, até o parapeito. Eis a ponte dourada que eu sonharia. Traguei mais oxigênio e raiva. Era como um combustível. De olhos fechados as lembranças eclodiam. De olhos abertos, as luzes me hipnotizavam e convidavam para uma dança aromática. Lá de cima me sentia forte, seguro. Mas logo o líquido vermelho que nos une por laços humanos escorria através do meu pulso direito. Banhei-me de glórias, enfim.
Eu disse "eu perdi tudo". Mas que tudo? Jamais havia tido metade de qualquer coisa. Não cultivei uma porção de coisa alguma. Não chorei por dores, não sorri por amores. Era um cão que apenas ladrava, correndo atrás dos carros. Mas se um carro, um dia parasse, eu não saberia o que fazer.
Agora já com o tal fluido rubro banhando e tingindo minha coerência, arriscaria pensar em arrependimento. Mas arrepender de que? Eu pedi para que ele agarrasse-me e não soltasse. E se por ventura soltasse, que levasse embora junto meu ar. E assim o fez.
Tonteei. Sentei. Cabeça baixa, vendo pingar gotas do tempo que minha testa carregavam. Olhei ao redor como uma criança que procura ter certeza de que está sozinha para aprontar alguma. E sozinho estava. Como de costume. Como reconforto. Véspera e dia formaram uma simbiose assintomática na minha consciência, e tudo passou-se depressa. Tão logo.
Recordações, como fotografias me estamparam. De um ontem ilimitado. Garrafas que bebi, desamores que bebi, laços e entrelaços rompidos, inexistentes. O cão se achava bom porque tinha a melhor rua. Mas o cão era apenas um qualquer, que corria como vira-lata, e cheirava como vira-lata. Vítima de si mesmo.
Foi então que após flertar com todos esses espectros (nisso eu era bom), aceitei o pedido, e saltei para a pista de dança, onde o sangue agora parecia mais real, e anestesiava antebraço, ombro e visão. Eu era um cão vagabundo, um dançarino poligâmico, um soldado no exílio e um órfão da vida. Era, agora, Clive B.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Eu sou... Clive B: Capítulo Terceiro: Voar e Caminhar, Me Diga, Qual a Diferença?
O gosto pelos meus lábios ainda era áspero, como de quando eu comia merengue do bolo e bebia algo gaseificado. Minha língua parecia dormente. Formigava. E meus olhos castanhos só ardiam. Me espichei um pouco pra tentar ligar o abajur. Em vão. A sombra tomou várias formas, e como numa viagem psicodélica no tempo, revi fantasmas de gente ainda viva e senti toda a vitalidade de almas que perambularam pelas avenidas da minha história.
Desespero é uma sensação engraçada. Às vezes tem gente frustrada porque não tomou a superdose correta de remédios a ponto de se matar. E em outros casos já vi gente agoniada com a saudade, chegando a agir por seus impulsos mais animalescos como carnívoros malditos de dieta há semanas, que veem um pedaço de carne pingando sangue no seu focinho.
Tentei sorrir. Meus lábios congelaram num raio que percorreu toda minha pele. Não sentia minhas pernas. Eu só voava. E tudo ao redor perdia a órbita pra se chocar 'vulcanicamente' nos meus olhos. Senti uma angústia forte que acelerou o som do desenho da caixa instalada ao lado da minha cama, que agora pareciam montanhas russas enfurecidas. O raiozinho verde do aparelho subiu e desceu em pontos que eu não sabia que eram possíveis, até que enfiou-se numa reta...
Neste momento engoli o vômito que logo vinha, e tudo escureceu. Logo após esverdear. A sombra se extinguiu. O lado bom? Senti meu lábio mordendo o outro, e isso me animou.
Aquela era mais que uma sombra! Era uma companhia. Tinha aparência disforme. Mas estranhamente me excitava. Acho que depois de plantar tanta ideia enfim colhi todas juntas. Logo pude abrir um livro e nele ver vidas recortadas e coladas como um álbum de família. Irônico, me senti abraçado.
Acordei de novo. Havia muito murmúrio. Luzes brancas e um falatório uníssono tomavam conta do local. Lambi os lábios como uma criança que aprende um novo gesto. (Parecia um tamanduá procurando formigas). A sombra desaparecera - Mas não da minha vida, pois ela preenchia minha metade - Apenas do quarto.
Ergui o tronco pra sair da cama. Uma nova onda me abateu. Flutuei pra longe de tudo. Perdi meu epicentro, minha referência... E lacrimejei como uma criança que pede doce (sempre infantilizo referências).
"Justo agora que me sentia metade bem" Pensei.
"Não sinto minhas pernas..." Dessa vez pensei tão alto que acho que gritei junto das lágrimas que me atravessavam, instintivamente.
Espero que adultos também voem...
Desespero é uma sensação engraçada. Às vezes tem gente frustrada porque não tomou a superdose correta de remédios a ponto de se matar. E em outros casos já vi gente agoniada com a saudade, chegando a agir por seus impulsos mais animalescos como carnívoros malditos de dieta há semanas, que veem um pedaço de carne pingando sangue no seu focinho.
Tentei sorrir. Meus lábios congelaram num raio que percorreu toda minha pele. Não sentia minhas pernas. Eu só voava. E tudo ao redor perdia a órbita pra se chocar 'vulcanicamente' nos meus olhos. Senti uma angústia forte que acelerou o som do desenho da caixa instalada ao lado da minha cama, que agora pareciam montanhas russas enfurecidas. O raiozinho verde do aparelho subiu e desceu em pontos que eu não sabia que eram possíveis, até que enfiou-se numa reta...
Neste momento engoli o vômito que logo vinha, e tudo escureceu. Logo após esverdear. A sombra se extinguiu. O lado bom? Senti meu lábio mordendo o outro, e isso me animou.
Aquela era mais que uma sombra! Era uma companhia. Tinha aparência disforme. Mas estranhamente me excitava. Acho que depois de plantar tanta ideia enfim colhi todas juntas. Logo pude abrir um livro e nele ver vidas recortadas e coladas como um álbum de família. Irônico, me senti abraçado.
Acordei de novo. Havia muito murmúrio. Luzes brancas e um falatório uníssono tomavam conta do local. Lambi os lábios como uma criança que aprende um novo gesto. (Parecia um tamanduá procurando formigas). A sombra desaparecera - Mas não da minha vida, pois ela preenchia minha metade - Apenas do quarto.
Ergui o tronco pra sair da cama. Uma nova onda me abateu. Flutuei pra longe de tudo. Perdi meu epicentro, minha referência... E lacrimejei como uma criança que pede doce (sempre infantilizo referências).
"Justo agora que me sentia metade bem" Pensei.
"Não sinto minhas pernas..." Dessa vez pensei tão alto que acho que gritei junto das lágrimas que me atravessavam, instintivamente.
Espero que adultos também voem...
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Segundo: Até Minha Poesia É Às Avessas
Eu deveria ir direto ao assunto (como de costume), mas acho que antes de contar qualquer coisa (por mais que seja uma mentira), é preciso apresentar fatos relevantes.
Eu não sou bom com apresentações (puderam notar no último post), então começarei como conseguir.
Sinto frio nos pés. Sempre que durmo, por mais quente que esteja, preciso cobrí-los, bem como as costas. A propósito, eu meio que me sinto indefeso com portas abertas e corredores. Não sou louco. Sou um soldado precavido, neurótico, que jamais voltou da guerra que comecei a travar comigo mesmo, ao nascer.
Manias são manias. Indiscutíveis. Não vejo o porquê de tentar curá-las. É como procurar um remédio pra quem não está enfermo. E por mais que doenças possam ser reflexos de manias num nível abusivo, eu sou doente desde que passei a escrever (ou então escrevo desde descobri as doenças).
E os meus vícios são apenas um apêndice disso tudo. Não to buscando redenção, nem ajuda. Quero enfrentar meus problemas sozinho. Sendo assim, guarde sua compaixão e sua dó no seu bolso.
A história começa mais ou menos baseado em fatos simples, relatados anteriormente, como beleza, poder e manipulação.
O fato é que eu era inocente! Mesmo que assumir culpa não seja meu forte, e essa frase soe piegas pros culpados. Mas aqueles olhos queimavam num caminho através de mim. Era esmagador, destruidor até docemente. Há um fogo dentro de mim , que queimou todas as minhas lembranças e as minhas culpas. Agora eu vou pra cidade, queimar também!
Eu não gosto de andar acompanhado. Não sou cão-guia. Acho que assim posso desenvolver minha calopsia sem julgamento.
Mas aquele olhar... Era algo indiscutível. Naquele tempo eu ainda rezava antes de dormir, e sonhava como uma pessoa qualquer. Eu queria lhe escrever um poema, uma canção de amor. Mas só o que eu pensava era nos nossos corpos destruindo a atmosfera e incendiando os ares com beijos vorazes e mal intencionados. Eu me despiria de todas as defesas e armaduras. Nadaria desnudo pelas correntezas daquele corpo, sem temer. Sem hesitar. Eu era um tolo. Um louco. Paixão enlouquecida. Droga, falei essa palavra. Aproveitem pra relê-la bastante. Não a usarei mais!
Eu era metade bonito. Metade desconsertado. Mas eu tinha conserto! Tinha beleza! Eu só não tinha vida.
Até que o dia 12 chegou. O mundo virou, revirou, me socou. Eu juro que senti minhas tripas saindo e sendo colocadas de volta com uma espátula de macarrão. Meu cérebro adormeceu. Lá estava. Deitado. Sem dormir. Sem Sonhar. Apenas deitado. E lá fiquei. Até despertar. Não sei quanto tempo se passou. Nem sei se passou algum tempo, ou se ele estacionou ao meu lado também.
Não lembrava de nada. Uma sensação me despertava. Não era fome. Não era sede. Estava com tudo no lugar. Mas qual lugar?
Abri os olhos. Uma silhueta parecia me observar. É, eu não tava dormindo.
Como queria fechar os olhos de novo e fingir que não acordei.
Tarde demais.
A sombra se aproximou, minha visão foi ficando menos embaçada. Arregalei os olhos pra tentar enxergar melhor.
É sério, não misturem desespero e ânsia de vômito. Elas combinam demais.
Será que eu tava bêbado? Porque só o que eu sentia, era frio nos pés.
sábado, 20 de outubro de 2012
Eu sou... Clive B. Capítulo Primeiro: Prazer, Eu Só Vejo Coisas Ruins:
Quer saber? A vida que bagunça a gente, e não o contrário. É verdade que tenho um vício em más escolhas, mas elas geralmente flutuam até mim. Eu sou como um ímã de negatividade e encrencas. Vou me debatendo com todas essas pessoas asquerosas e intediantes, como um coelho cego que vai trombando nos arvoredos até ser abocanhado por uma serpente.
Mas ok, eu admito que a culpa é um pouco minha. Maus pensamentos devem atrais más consequências. Filosofia budista me atrai. E como eu to sempre com a mente ocupada de raiva e desgosto, a roleta de prêmios se afasta mais e mais. A única que eu tenho ganhado ultimamente é a Russa (menos mal, melhor do que nada).
Todo mundo enche a boca pra falar como mudaram e como 'evoluiram'. Mas cá pra nós, tudo papo furado. Ninguém muda. Ninguém Evolui coisa alguma. Melhoria de nada. E se aprendessem mesmo com os erros, não repetiriam tanto. Ou vai ver são lerdos de mais. E olha que eu nem preciso de super poderes pra ver isto (logo mais vocês vão ver quais são meus poderes). No final, é sempre uma casa abandonada fingindo ser um lar de órfãos. E lá dentro, na sala de jantar, eles cospem nos pratos todas as vezes que percebem o falso moralismo do qual tentam se convencer. Então poupemo-nos disso e engulemos a saliva de antemão.
Mas não to julgando. Cada um com seus demônios. Mentir sempre foi a opção mais confortável. E pagar por suas penitências talvez seja fábula ou mito para que não libertemos o que de pior guardamos. Mas o inferno pessoal de cada um diz tudo! E o sofrimento calado deve ser uma maneira de vingança divina por envergonharmos tanto a espécie.
Eu não to preocupado com companhia e amizades. Sei que beleza atrai tudo isso (e dinheiro mais ainda), e o preço pra esse playground ilimitado nem é dos maiores.
Mas desculpa aí, eu sempre atropelo as coisas. Nem me apresentei e já fui logo tagarelando. Mas que importa um nome? É tudo como um cardápio. Um álbum de figurinhas. Todos diferentes. Mas iguais. Mas já que o mundo é como uma vitrine onde ficamos pendurados que nem carne no açougue aguardando alguém escolher um pedaço nosso pra devorar, mando esse pra vocês agora: Clive B.
Voltando... Acho que o mundo tá girando rápido demais, e eu não to conseguindo acompanhar (e sério, eu to limpo hoje). Ou talvez isto seja desculpa de derrotado - deve-se tomar cuidado para não se acostumar com esse rótulo.
Mas o ser humano é bicho engraçado mesmo. Acho que se o colocassem numa roda como aquela dos râmsters, eles correriam tanto, que se acostumariam. Até dar um jeito de burlar as regras e destruir tudo. E ainda dizem que a maior dádiva é a liberdade. Isso é papo de poeta ou o quê? O que melhor pode se oferecer é a verdade! Eu sei que disse há pouco tempo que mentiras são mais confortáveis (e são!), mas é das verdades que corremos. Porque elas sempre chegam num momento inapropriado - Embora seja culpa nossa torná-la tão instigante. Mas é a hipocrisia que se veste todos os dias ao sair da cama. É com ela que casamos!
Mas to achando que algumas coisas não dá pra comprar.
Experimenta oferecer uma grana pra Deus te liberar um pouco de boa vontade!
Engraçado, de repente ser bonito e famoso não te fez tão bom, né?!
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