quarta-feira, 27 de julho de 2011

Volta ao Luto:

O mundo do fingimento é uma gaiola, e não um casulo. Não estamos sozinhos nele. Batas olhar ao redor. Todos estão fingindo. Com um lápis e uma folha em mãos, posso escrever um mundo novo (um mundo ideal), transferir-me para ele e acreditar.

Todos fingem o tempo todo, e não há como negar. É mais fácil assim. Talvez isto não seja tão ruim. A negação une as pessoas. E no final das contas, tudo o que desejamos é não estarmos sozinhos.

A solidão não é uma poça d’água, e sim um imenso oceano. E certas vezes, não há como não se afogar nele.

Às vezes nem toda a negação é o suficiente. Às vezes caímos na real e quando percebemos, estamos realmente sozinhos.

O tempo nos ensina muita coisa apesar de não curar todas as cicatrizes. Porém às vezes simplesmente apegar-se a algo consolida uma fé. E não estou me referindo á fé religiosa, às crenças em um Deus, e sim a uma nova e reconfortante esperança.

A fé como um chacal se alimenta entre os túmulos, e mesmo dessas dúvidas mortas ela reúne sua mais vital esperança.

E como num livro, escrito por um autor megalomaníaco, vou escrevendo (e assim descrevendo) minha própria vida. Tantas feridas e lágrimas... Elas me fazem lembrar tudo que já passei. Perdi tantas pessoas. Vivi tantos desamores. Um emaranhado de desilusões que faz parecer que tudo até agora foi á toa. Agora só o que restou foi uma alma vazia e solitária, e um livro de bolso chegando às últimas páginas.

Os finais são sempre difíceis. Por mais que demos destino às personagens coadjuvantes, sem esquecê-los, sempre ficarão linhas perdidas e histórias mal acabadas. Nunca é possível agradar a todos num final, portanto escrevê-lo é muito complicado.

Talvez pelo fato de não ser planejado, o fim sempre deixa uma sensação de que não foi dito tudo. E por mais que saibamos o final antes mesmo de começar a escrevê-lo, ele estará sempre incompleto.

Eu não vejo todo minha vida passar perante meus olhos. Só o que vejo é um final se aproximando. Toda história chega ao fim. Mesmo que com um fim incerto. Todos querem uma última nova notícia, um novo sentimento, uma reviravolta, uma surpresa. Todos querem uma nova esperança. Mas cedo ou tarde, a solidão te consome e a gaiola se fecha pra sempre. Não espere por uma última frase impactante ou um grande acontecimento.

Se você realmente deseja algo, você irá descobrir como torná-lo realidade.


Eu enterrei meu próprio coração, bebi do meu próprio sangue, chorei quando não tive mais forças, selei minha música num último gole de fé e uni-me à sombra do abandono.

Sei que Eles estão à minha espera, mas agora eu estou de volta ao Luto.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Minha Última Manhã de Natal:

Eu sei que eu prometi não tocar mais neste assunto, e que tu pretende me excluir de vez da tua vida, mas eu não posso deixar isso passar perante meus olhos e ficar parado.

Eu não sei como parar de te amar.

Desculpa, mas tu me prometeu que sempre estaria comigo quando eu precisasse e que me acolheria como sempre fez.

Eu sempre fui do tipo orgulhoso, mas hoje quando acordei me senti um nada. Tu havia me abandonado.

Eu sei que errei muito contigo, mas tu é tudo que eu sempre sonhei pra mim.

Talvez tenhamos feito as coisas do jeito errado. Me desculpa pelas brigas e discussões, mas hoje quando acordei até elas fizeram falta.

Eu discordo de ti. Tudo o que passamos não foi um erro. Foi o melhor tempo da minha vida. Mas agora estou aqui, escrevendo estar carta de adeus que jamais será lida. Que jamais será entregue. E agora nada que eu diga será o suficiente.

Então apenas direi do meu jeito: Eu te amei desde o primeiro momento e em todos os que o sucederam. Amei todas as vezes que me fez sorrir, e até quando me fez chorar. Tu sempre será a melhor parte de mim. Eu te amo exatamente do jeito que tu é.


E como eu sempre te disse, te amar será sempre como acordar numa Manhã de Natal.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Minh'Alma por um Coração de Sangue:

Eu estava sozinho, sem esperança. Então quando eu adormeci, pude encontrar você. Espelhos eu quebrei, e assim consegui te libertar. Eles não entendem meus motivos, mas você é o meu doce pesadelo.

Beleza do infinito em cálice de sangue. Meu Anjo aterrador estou para sempre no seu abraço de asas negras. Lágrimas de cristal e dois triângulos entrelaçados são tudo que importa agora.

Não interessa o preço nem as condições. Quero selar este pacto num beijo de Judas. À meia-noite, meia-luz e meia-vida. Olho de Ísis e a história de um romance ruim.

Eles me julgam e me chamam de anti-Cristo. Mas agora estou embriagado pela eternidade. Venha, sente-se comigo para bebermos whisky em duas doses.

Eu tenho meu Anjo agora, e podemos passear no vale das sombras. Não há o que temer. Estamos num ritual, abra seu coração e deixe-o entrar. Tudo será mais fácil quando as vaidades se consumirem.

Pague-o com o que você tem de pior.

Explosão de pecados num encontro alado. Eles não entendem meus motivos, mas você é meu belo sonho. Um pilar de luz banido por seu orgulho. Juntos, teremos um bálsamo para toda essa falsa santidade.

Eu serei seu garoto de diamante, arraste-me com você. A sombra está queimada e os sorrisos em violeta de sangue.

Darei seis rosas negras para cada seis estrelas que conspiram para os seis amantes do Heavy Metal.

Agora ele está sentado em seu trono. Um temível cão de três cabeças protege o portão do seu palácio. E à direita do trono estou eu, num transe psicodélico de sexo e masoquismo.

Não importa o preço. Eles jamais entenderiam os meus motivos. Ceifador de prazeres, meu Anjo em rubro sopro de caos.

Minha alma agora é sua. Foi o preço que tive que pagar. Meu coração está vazio, mas meu Rock n’ Roll viverá para sempre.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Canção de Ninar - Parte 8 ( Final do Capítulo I : A Fantasia Final )

Ora minha cara Flor de Lótus, tu acreditas em destino? Pois deverias...

Como já havia citado a garota das Meias Sete Oitavos, após uma terrível desilusão, prometeu jamais amar novamente. Mas pactos serão sempre terrestres, prontos para serem subornados.

Talvez um novo amor fosse o remédio capaz de reviver os sentimentos da promíscua Lótus. Mas talvez seja perda de tempo dedicar-se a uma falsa flor da noite. Enfim, para o garoto Peter Pan, amar nunca é perda de tempo. Afinal, depois de perder a esperança nos seus sonhos, restou-lhe o florescer de uma paixão.

O garoto dos Sapatos Vermelhos foi ao encontro da garota das Meias Sete Oitavos. Ela cuidava do jardim diariamente. E ele a observava com olhos de insana paixão. Trocaram olhares cúmplices e conversas de entrega. Com o passar do tempo, Lótus e Peter Pan traçaram uma estrada no jardim que terminava na Grande Cerejeira.

Coincidência (ou o implacável destino) plantou-lhes a mesma semente que semeara entre o jovem Coração de Leão e a menina da Íris Cor-de-Rosa.

Eles estavam dispostos a tudo. O garoto dos Sapatos Vermelhos conseguiu enxarcar a alma da menina das Meias Sete Oitavos de novas esperanças. Esta por sua vez, era uma eterna inspiração para ele.

Acreditas em destino, minha doce e desamparada Lótus?

Numa tarde, após um dia chuvoso, a adocicada Lótus resolveu surpreender o amado. Foi até a Cerejeira e pegou as duas cartas que haviam sido lidas. Estas cartas eram pura representação de uma história de amor. Então, após pegá-las, ela voltou ao entro de seu amante, desta vez indo pela estrada.

Em contrapartida, o gentil Peter Pan acorda bruscamente de um pesadelo. Era uma tragédia! – gritou ele. Para muitos apenas um sonho, mas para ele, um aviso, um chamado cósmico. O garoto correu ao encontro da amada.

Num olhar distante ao horizonte, os dois viram-se como num lampejo. E correram ao encontro um do outro. Era um encontro cármico.

Neste momento, a menina da Íris Cor-de-Rosa dirigia o carro que fora de seu pai. Enebriada pelo êxtase de estar junto ao seu amor. Tal êxtase tirou-lhe os sentidos. Uma tragédia!

Num repentino segundo, um clarão. Aos céus, rasgando o Arco-Íris, voavam duas cartas, uma rosa de bolso que o garoto dos Sapatos Vermelhos sempre levara consigo, e à terra capotava o veículo de tal Íris que perdia a Cor-de-Rosa.

Acreditas em Destino?

Quatro almas viajantes. Perdidas mas achadas. Quis o destino (ou talvez algo ainda maior) que se desencontrassem.

Nos últimos raios solares, vi ao longe uma Flor de Lótus perdendo as pétalas da última esperança, uma alma de Peter Pan aprisionando-se na maturidade e perdendo a infância, e tal Íris perdendo todas as rosas...

A morte não é o Fim. A morte aconteceu?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Canção de Ninar - Parte 7:

Sonho. Combustível infinito dos poetas. Eterna fonte de inspiração e refúgio. Talvez seja só uma alucinação. Ou quem sabe desejos reprimidos. Ou ainda meras utopias para aqueles que não conseguem diferenciar o real da fantasia.

O jovem com Sapatos Vermelhos tinha o dom de sonhar (além da pintura já citada). Era um incrível sonhador nato. Ele tinha alma de Peter Pan. O garoto não queria ser adulto porque não queria assumir responsabilidades. Para ele, o mundo de gente grande era falso e perigoso.

O garoto dos Sapatos Vermelhos sonhava tanto que às vezes não sabia quando era realidade. O fato é que para ele os sonhos eram uma extensão da sua própria vida.

Sonhos. Reflexos da nossa alma. Camuflagem. Atitude (ou talvez consequência) escapista. Quando o mundo te dá as costas e mãos amigas te apedrejam, é um subterfúgio da cólera e soberba. O molde exato das nossas vontades reprimidas.

Um sonho. Um desejo. Uma realização. Uma inventividade. Um sopro de vida. Onde se pode ser o que quiser e como quiser.

Para o garoto dos Sapatos Vermelhos, no sonho ninguém o julgaria por sua condição sexual, raça, religião, postura política, idade ou aparência. No seu sonho, os vagalumes dançavam como um círculo de fogo e uma tal Flor de Lótus brotava no seu coração.

É uma pena que todo sonho dure tampouco. Apenas o tempo suficiente para ser inesquecível.

Ele não estava à procura da Estrada de Tijolos Amarelos, afinal ele não tinha um lar. Em seus sonhos, tudo era colorido, e as árvores eram de algodão doce. As borboletas tinham asas brilhantes, o sol intensificava a maresia da sua alma e ele já havia superado o medo do monstro do armário (ou pelo menos quase). Ele não acreditava em Bruxas, mas sabia que elas existiam.

Só o que o garoto com Sapatos Vermelhos não gostava, era de despertar. Afinal, ao acordar a esperança murchava, os tijolos perdiam as cores, as borboletas ficavam acizentadas, as árvores perdiam as folhas, o sol tinha o brilho ofuscado e tudo tornava-se preto e branco. Nem os monstros o assustavam mais.

Faltava-lhe inspiração para pintar, mas nunca para sonhar.
Nada era real, era tudo programado. E agora, nesta desconhecida realidade, o garoto com Sapatos Vermelhos estava desamparado...




...Só o que lhe restara, fora o amanhecer da Lótus, que guiou-lhe a um novo sonho...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Canção de Ninar - Parte 6:

Medo. Quando o subconsciente trava uma batalha indolor com nossas expectativas. Uma defesa natural que surge em contrapartida à confiança.

Medo. Quando todos os fantasmas e monstros do passado resolvem mostrar que não te esqueceram. É o que está no escuro da nossa alma. É um frio que como uma navalha, te dilacera facilmente e te desarma.

Medo. Um transe psicodélico em preto e branco. Um redemoinho de dúvidas avassalador. O tique-taque do relógio, que não para. Medo é insípido, incolor, inerte, insólito... Mas existente.

É mais do que uma força, é uma fraqueza. Uma fraqueza fincada à nossa coragem e selada aos nossos atos.

A Menina da Íris Cor-de-Rosa tinha medo do escuro. Quando as luzes apagavam, as incertezas se acendiam. Ela tinha medo de perder-se no nada, e nunca mais se encontrar. Por isso, quando as luzes apagavam, ela buscava conforto nas estrelas (estas que nunca perdiam o brilho).

Bastava-se uma dose e meia de medo para o gélido terror chegar à beira da Glória. O vento que balançava os galhos da Cerejeira era o mesmo que trazia consigo todas as palavras arrastadas do cemitério. Vozes veladas que vulcanizavam as ruas.

A garota tinha o brilho de suas Íris Cor-de-Rosa ofuscado pelo medo. Um medo viajante, inescrupuloso e vil. Ela tinha os lábios em tom nude e a voz em rouquidão. Ela tinha medo da solidão. Medo do esquecimento eterno, da tosse embriagada de anseios, de suspiros longilíneos e abandonados.

A Menina tinha medo, e isso bastara. Perdia o movimento e movimentava todas as perdas, como um alimento insaciável da angústia. Ela tinha medo de não ser reconfortada pelo Garoto Coração de Leão. Estava anestesiada pelo medo. Sentia-se culpada. A culpa também move o medo, e ela estava fixada a idéia de juntar-se ao amado, custasse o que for.

Para a Menina da Íris Cor-de-Rosa, a morte não era o fim, e sim um caminho inóspito até o Coração de Leão.

Céu, Nirvana ou Paraíso. Culpa, Amor ou Medo.
Ela escolheu suas cartas e apostou no caminho do Arco-Íris.

O Medo é ilusório. Um oásis em deserto de desespero.

A Menina da Íris Cor-de-Rosa foi em busca do seu sonho.
Numa mão tinha um punhal (já citado ao decorrer da história), e noutra o diário há muito tempo seu único refúgio, e em sua mente, agora livre do Medo, um único objetivo:

Estar junto ao Menino com Coração de Leão.

sábado, 25 de junho de 2011

Canção de Ninar - Parte 5:

Saudade. Foi só o que restara. O único sentimento capaz de afagar e ferir, ser desejado e desejar. Uma dose de esperança embebida em meras lembranças.

Saudade. Um suspiro em nome dos bons momentos. A recordação em forma de vontade. Vontade de ter novamente o que não se teve um dia.

Saudade. O que as ondas sepultam na areia, e o que as borboletas carregam no bater de suas asas. Fora qualquer sentimento, fiquemos com a saudade! Esta que não pode ser maquiada ou inventada. Esta que é arrastada pelo tempo como os ventos ao pôr-do-sol.

Saudade que se vive, saudade que mata.

O jovem Coração de Leão tinha saudade da mãe. De dormir despreocupadamente no seu colo. Tinha saudade da infância, quando beleza não era fundamental, e qualquer pequeno ato era sinal de inteligência. O garoto Coração de Leão tinha saudade de desbravar mundos no horizonte do seu quarto, e de dominar o medo, agarrado ao seu travesseiro. O menino teve sua saudade servida em bandeja de prata.

O jovem tinha saudade de encontrar uma terrível selva em meio a um jardim que ele plantara, colher sorrisos em lábios de açucena e de ver brilhar tais olhos com Íris Cor-de-Rosa.

O garoto com Coração de Leão teve a saudade arrancada do próprio peito. Amor, desamor e dissabor. A saudade se foi, a ferida ficou.

A morte jamais representará seu fim. Será sempre um reinício. Tudo morre para outrora renascer e se renovar. Trata-se de um grande ciclo de “reexistência”. Não morreria ele, ao perder a vida. Morreria somente ao perder a saudade e a esperança.

E a vocês, posso afirmar: Não diria que o Astro com Coração de Leão morrera definitivamente naquela noite, mas posso dar-lhes certeza de que naquela manhã até a noite que sucedera, ele havia morrido uma porção de vezes...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Canção de Ninar - Parte 4:

Desiludida. É assim que se sentia a garota que usava a Meia Sete Oitavos. A garota sempre fora ingênua e sonhadora. Acreditava no verdadeiro amor e na total entrega. Porém, uma decepção mudou o caminho de seus pensamentos. Após perceber o quão ruim a índole de alguém pode ser, a menina perdeu a vontade de sonhar. Sentia-se a única pessoa decente que acreditava na pureza. A garota é a prova viva de que o meio onde se vive pode transformar a mais bucólica moçoila na mais fugaz das borboletas.

Decepcionada. Ela apagara de sua mente o tempo de sua vida em que era uma bobinha (assim a considerava, a partir de agora). Ao contrário do que possam pensar, a garota da Meia Sete Oitavos, não chorou. Passou a cuidar do jardim, como se esperasse brotar algo além de flores. E brotou. Sonhos em lápide de cristal eram tudo de que se lembrava. Era agora, uma Flor de Lótus ferida pela desonra da paixão leviana.

A jovem, que se espinhara numa rosa de dor, prometeu nunca amar, e assim não sofrer novamente. A menina que tinha os cabelos ondulados em sincronia com o vôo das borboletas e lábios de pura traição rubra apegou-se à solidão. Caçadora de corações, a menina da Meia Sete Oitavos possuía toque de Midas e beijo de Judas.

Logo, o jardim florescera como um rio d’ouro que serpenteava o planalto, e desabrochava ao pé da já conhecida Cerejeira.

Certo dia, hipnotizada com a aurora dos vagalumes e embriagada com o pólen das margaridas, a garota viu-se em frente à Grande Árvore. Então se deitando na grama e apanhando um envelope púrpura entreaberto, desdobrou uma carta que passou a ler. Nela dizia:

“Querido Coração de Leão, jamais aceitarei o fato de abandonar-me, todavia perdoarei. Lamento todos os dias, não ter estado contigo, mas saiba que seu doce amor selou minh’alma. Apesar de desacreditado, você pôde amar. Não fugi, estarei sempre a escrever-te, e através de confusas, porém magníficas almas, sei que as mensagens chegarão a você. Espero que cada consolo sirva também a vocês, que se vêem sozinhos. O amor é como um tijolo: Você pode construir uma casa ou afundar um defunto. Sei o quanto o homem é terrível, mas por mais que sintam-se fracos, apeguem-se às obras da Mãe Natureza. Afinal as estrelas sempre brilharão, as flores sempre encantarão e a brisa sempre os acolherá. E a você, meu querido Coração de Leão, desejo que leve consigo sempre e para sempre a esperança de amar...”

Menina da Íris Cor-de-Rosa

Quanto à Garota da Meia Sete Oitavos?

Bem, o que posso dizer é que daquele dia em diante, a Lótus passou a germinar ao lado da Cerejeira, amparada pelas Estrelas e acompanhada dos Vagalumes... para sempre.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Canção de Ninar - Parte 3:

Passando pelo parque, no meio da tarde, o garoto com Sapatos Vermelhos pôde avistar de longe, sob o tronco de uma imensa cerejeira, uma espécie de carta, que chamou-lhe a atenção na mesma hora.

O jovem estava a caminhar, sem rumo certo, apenas em um transe profundo como de costume, quando buscava algum tipo de resposta para uma pergunta ainda não feita.
Nesse momento ele podia concentrar-se e assim desvirtuar-se de falsos apegos (sejam eles materiais ou melódicos).

Ele estava num labirinto. A saída que ele procurava simbolizaria a resposta obtida. Mas ele estava muito longe de adquirí-la. Na verdade, quanto mais caminhava, mais o menino afundava-se no seu subconsciente.

Não prenderei-lhes em demasiados detalhes sobre a vida do garoto com Sapatos Vermelhos, mas o que posso resumir, é que o garoto vivia numa vida que não era a dele. Ele estava a escrever uma história na qual não sabia mais quem era o protagonista. Ele escrevia, apesar de prerferir pintar.

Em busca da sua própria identidade, o garoto assumiu diversas falhas, que carregava consigo até hoje. Cada personagem e cada erro acumulado, o distanciava cada vez mais de quem ele realmente era. Estava ele submerso num riacho de hipocrisia e moralismo.

O jovem tinha sorriso vazio, olhar curioso e cabelos bem penteados que imitavam um sábado de luar. Tinha fala ligeira e inóspita de alguém que tem muito a dizer, mas que faltava coragem de encontrar sua própria alma.

A esta altura, ele não sabia se o que o tinha tornado fulgaz era a pressão do meio que o influenciava, ou sua própria incapacidade de reação. O menino de gestos fáceis e trejeitos misteriosos, tinha alma de Peter Pan.

Mas enfim, sentando-se à sombra da cerejeira, e com uma enorme nuvem cobrindo os raios solares, o garoto tendo a carta escrita pelo menino Coração de Leão em mãos, sentiu-se acolhido. As folhas que caíam da árvore eram como vagalumes que dançavam a seu redor.

Tomado por um espírito zombeteiro, o garoto desdobrou rapidamente o papel, e assim fitou-lhe os olhos, e passou a ler:



"Eu lamento não ter sido forte o suficiente, mas ao olhar pela janela, percebi que a neve havia cessado. O sol estava tímido e soprava um gélido vento, que me hipnotizava. Eu olhei para os lados e não a vi. Eu sei que você estava sozinha, mas eu também estava. Eu nunca pude ser quem realmente sou. Mas você... oohhh minha querida, você será sempre um sonho tatuado na minha alma. És corajosa e sempre será livre. Liberte seus demônios culposos. Mergulhe, corra e grite. Faça tudo que não tive coragem de fazer. Não serei um peso para você como fui para minha mãe. Nunca pude ser feliz, mas agora que arrancarei o mal que tanto arrebata as pessoas, do meu próprio peito, serei livre como você. Espero um dia poder ver seus olhos Cor-de-Rosa novamente, pois o brilho que me foi prometido, não passou de uma utopia.
Agora encerrarei esta história, não mais nos veremos, mas quero que saiba, que eu tive o melhor momento da minha vida, e devo tudo isso a você.
Minha linda, este coração que bateu somente por você, agora não baterá mais..."




Ao terminar a leitura, os vagalumes que ali estavam, rodeavam o garoto com Sapatos Vermelhos, que agora tinha em seu rosto uma lágrima e nada mais.

O jovem levantou-se, e mesmo sabendo que havia outra folha no envelope, dobro-a como antes estava, e deixou a carta onde a encontrou.

Ao afastar-se do local, o garoto sorriu. Ele ainda não sabia ao certo quem ele era, mas havia achado a saída do labirinto, e agora era muito claro pra ele, que essas eram duas coisas absolutamente diferentes.


O garoto encheu-se de coragem, e decidiu ser o que o fazia feliz.

E ao pintar seu primeiro quadro, não pôde jamais esquecer dos vagalumes que dançavam, quando ele foi feliz pela primeira vez.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Canção de Ninar - Parte 2:

A menina da Íris Cor-deRosa, sempre sentiu-se incompleta. De uma maneira que nem ela mesma conseguia explicar, ela sentia-se sozinha e deslocada. Aos poucos, foi percebendo que todas as pessoas tinham seu preço. Mas ela resolveu que as pagaria com amor.

A jovem, questionadora por natureza, era uma artista. Insipirava-se nas mais longelíneas sensações, e assim escrevia. Seu amor pelas palavras era o único a qual ela considerava verdadeiro.

Quieta, de longe observava tudo, e assim tornou-se uma coadjuante na sua própria história de vida. Mal lembravam de seu nome, mas ela não se importava, afinal ela também não o conhecia. A menina que tinha a Íris Cor-de-Rosa como uma violeta selvagem, acolheu-se na luz das estrelas. Vez que outra, era possível pegá-la deitada, observando os céus. Por diversas vezes, viu o sol transformar-se em lua.

Era uma garota de sorriso brando e pela macia e aconchegante. Sua mãe dizia que ela sempre teria seu colo, para afagar-se.

Numa tarde de outono, a jovem recebeu a notícia que mudaria sua vida: Sua família havia morrido num trágico acidente, na qual ela jamais saberia detalhes, afinal após ouvir as palavras "eu lamento", ela correu. A menina correu para nunca mais voltar.

Após sepultar seu último sorriso arrastado por um mar de lágrimas, a menina pode ver no horizonte, um lindo unicórnio branco. Ela sorriu pela última vez.

Sentada na grama de lugar nenhum, onde as brisas pairavam sobre as folhas de cerejeiras que ali perpetuavam há décadas, a garota ficou. Tentava resgatar na memória algum bom momento, para alegrar-se. Não lembrou de nada. Só no que pensava, era que sua mãe havia lhe prometido companhia para sempre. Mas o para sempre foi um para sempre pela metade.

A menina da Íris Cor-deRosa levantou e correu. Correu como se soubesse onde deveria ir. Correu tanto que perdeu o rumo ( ou talvez o encontrou)...

Ao abrir a porta, viu o menino Coração de Leão com os pulsos mutilados e alma vazia. Os pulsos ela pôde curar, mas a alma dele estava longe demais a esta altura...

Passado o episódio, a menina sentia imenso orgulho do jovem Coração de Leão, e toda noite contemplava as estrelas e pescava novas esperanças.

Embreagada no êxtase das palavras, a menina não parou de escrever. Viu nas folhas que virava, um eterno refúgio, e assim mergulhou com todas suas forças. Foi o preço que ela tinha que pagar.

No dia seguinte, a menina havia desaparecido. À noite, duas estrelas brilhavam em seu apogeu, e um livro estava sob o tronco das Cerejeiras. Nele estava gravado o seguinte Epílogo:

" O Menino Coração de Leão e a Menina da Íris Cor-de-Rosa, uma Canção de Ninar".






Os Astros, brilhariam, enfim, juntos para sempre.