Desiludida. É assim que se sentia a garota que usava a Meia Sete Oitavos. A garota sempre fora ingênua e sonhadora. Acreditava no verdadeiro amor e na total entrega. Porém, uma decepção mudou o caminho de seus pensamentos. Após perceber o quão ruim a índole de alguém pode ser, a menina perdeu a vontade de sonhar. Sentia-se a única pessoa decente que acreditava na pureza. A garota é a prova viva de que o meio onde se vive pode transformar a mais bucólica moçoila na mais fugaz das borboletas.
Decepcionada. Ela apagara de sua mente o tempo de sua vida em que era uma bobinha (assim a considerava, a partir de agora). Ao contrário do que possam pensar, a garota da Meia Sete Oitavos, não chorou. Passou a cuidar do jardim, como se esperasse brotar algo além de flores. E brotou. Sonhos em lápide de cristal eram tudo de que se lembrava. Era agora, uma Flor de Lótus ferida pela desonra da paixão leviana.
A jovem, que se espinhara numa rosa de dor, prometeu nunca amar, e assim não sofrer novamente. A menina que tinha os cabelos ondulados em sincronia com o vôo das borboletas e lábios de pura traição rubra apegou-se à solidão. Caçadora de corações, a menina da Meia Sete Oitavos possuía toque de Midas e beijo de Judas.
Logo, o jardim florescera como um rio d’ouro que serpenteava o planalto, e desabrochava ao pé da já conhecida Cerejeira.
Certo dia, hipnotizada com a aurora dos vagalumes e embriagada com o pólen das margaridas, a garota viu-se em frente à Grande Árvore. Então se deitando na grama e apanhando um envelope púrpura entreaberto, desdobrou uma carta que passou a ler. Nela dizia:
“Querido Coração de Leão, jamais aceitarei o fato de abandonar-me, todavia perdoarei. Lamento todos os dias, não ter estado contigo, mas saiba que seu doce amor selou minh’alma. Apesar de desacreditado, você pôde amar. Não fugi, estarei sempre a escrever-te, e através de confusas, porém magníficas almas, sei que as mensagens chegarão a você. Espero que cada consolo sirva também a vocês, que se vêem sozinhos. O amor é como um tijolo: Você pode construir uma casa ou afundar um defunto. Sei o quanto o homem é terrível, mas por mais que sintam-se fracos, apeguem-se às obras da Mãe Natureza. Afinal as estrelas sempre brilharão, as flores sempre encantarão e a brisa sempre os acolherá. E a você, meu querido Coração de Leão, desejo que leve consigo sempre e para sempre a esperança de amar...”
Menina da Íris Cor-de-Rosa
Quanto à Garota da Meia Sete Oitavos?
Bem, o que posso dizer é que daquele dia em diante, a Lótus passou a germinar ao lado da Cerejeira, amparada pelas Estrelas e acompanhada dos Vagalumes... para sempre.