sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Eu sou... Clive B. Capítulo Décimo Terceiro: Geração do Nada, Eu Voltei:


" Ando distante. Temeroso. Fui gerado sob a dúvida e a dor. Minha geração está abandonada. Disseminada. Lastimável. Sou um viajante incorrigível. Não faço rimas. Minha vida é assim mesmo, desfocada. Como um balde de tinta qualquer jogado sobre a obra de um artista. Eu tingi essa terra com meu orgulho e minhas pragas. Tarde demais para arrependimentos! Eu voei, como qualquer mortal desejaria, e beijei flores douradas dos Elíseos. Quando fecho os olhos quase ouço as ninfas cantarem. Suburbano dos céus. Eu me enfio em corredores apertados e caço papel e caneta pela madrugada. Tudo para manter-me vivo. Para manter este mundo intacto. Essa geração indefesa, consumida no próprio ódio. Ódio de si mesmo, sua própria imagem aversiva e cognitiva. E em todos me encontro num canto de lábio ou num bater de cílios. Antagonista de si mesmo. Vivo um dia por vez. Mas misturo os arroubos do passado com as descrenças do futuro. Gasto meu dia todo num encucado problema, e sofro. Grito antes da agulha me espetar, mas sorrio depois. Sou egoísta demais pra deixar que todos se ferrem sozinhos. Eu abraçarei o mundo, e gemerei com ele. Até que acabe a tinta, e o meu ar. Enquanto houverem cores a serem descobertas e verdades a serem encobertas. Sem prazo definido, mas ciente de que um dia acabará. Como o sol, a imensidão do mar e dos frutos. Porque tudo, nessa terra amaldiçoada, nasce e prospera, apenas esperando o dia de cair sob o sono onipotente e perpétuo chamado morte. "

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Eu sou... Clive B. Capítulo Décimo Segundo: Enquanto Formos Jovens, Viveremos e Morreremos Por Nós Mesmos...

O escuro é uma metamorfose diferente dentro de cada um. Os diferentes prismas que as sombras podem ofertar, são jóias singulares e peculiares, dentro de seus próprios mundos inventados. Por exemplo, no escuro do meu quarto eu me sinto seguro. Protegido. Nada pode me atacar. Ao mesmo tempo, baixo as defesas e algo em mim parece se revelar. Talvez uma parte que jamais seja apresentada às pessoas. Um versículo arrancado e remoído de uma poesia parafraseada de alguém com muita solidão e libertinagem a oferecer. Sob o escuro do meu quarto, eu me permito ser fraco e degradante. E assumo a responsabilidade de aguentar a culposa e silenciosa penitência que as paredes oferecem.


Mas ainda assim, para uma criança, as paredes do quarto são como muralhas do seu castelo.


Há milhares de mensagens subliminares escondidas ao redor destas paredes. Tantas gargalhadas. Tanta culpa. Tanto desprezo. Tudo foi tingindo e varrendo as verdades pra baixo do tapete numa tentativa de justificar todos os erros conseguintes.


E aqui eu compus canções pelo meu corpo. E meu pulso foi a tábua preferida pra justificar as composições. Eu sou uma orquestra toda trabalhando sem um maestro. Eu só faço barulhos incompreensíveis.


Por outro lado, sob o escuro da rua eu ganho forças. A noite me concede a liberdade que qualquer poeta necessita. Eu assovio pontes e aspiro neve em flocos. Toda a insegurança injeta a droga que eu preciso pra criar. Pra existir. Eu danço com o sexo e a noite. Porque o dia é a minha ressaca recorrente. Eu bebo o pôr-do-sol porque só ele entende as minhas lágrimas aprisionadas pelo meu orgulho, e a minha corrida incessante de mim mesmo. Corro pelo crepúsculo, mas corro ainda mais pra não chegar a lugar algum.


Só ele sabe que eu grito no escuro porque acho que alguém, algum dia, me ouvirá e me resgatará. E eu bebo a voz das estrelas e a auto-piedade que sobra. Eu trago de volta cada dor pra assim viver uma noite mais. Eu sangro meu coração todo fim de noite, mas ninguém percebe. Mas agora eu preciso guardar tudo o que me sobrou pro próximo drink.

Eu vivo rápido e morro jovem várias vezes, e esse é o meu destino.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Eu sou... Clive B. Capítulo Décimo Primeiro: Bebo A Vida Que É Minha

"Enganado estava aquele que recusou minha mão. Eu estendo esperança aos desabrigados de amor. E mesmo reprimindo minhas própria docência e pondo ao altar toda minha culpa, sentencio meus erros com a solidão. Eu não sou bêbado porque bebo. As drogas mais comuns e tão faladas não são o problema da humanidade. As pessoas tornam-se seus próprios demônios, e a caçada ao céu, afasta-se ainda mais cada vez que meus pulsos se abrem e as cicatrizes relembram minhas fúrias. Eu bebo a torcida negativa para a minha morte, e danço com a sombra negra da felicidade. Não sou bêbado porque bebo culpa e sofreguidão. Meu amor é auto-destrutivo, indecente. Eu reconstruo verdades, e aspiro o pó da minha realidade. Meus lábios se comprimem, numa mordida voraz, enquanto minhas mãos ficam ásperas e meus olhos calam. Eu sou dançarino das letras, contemplo a noite nos seus perigos e convites maldosos. Porque existem abraços que são como beijos, e eu bebo eles também. Mas não sou bêbado porque bebo. Nem sou feliz porque sorrio. Sou a verdade do medo, e a ressaca da compaixão. Não sou nada além de um guerreiro do nada. Mas agora você ficará sentado, vendo meu mundo girar e lidando com sua fraqueza. Eu recolhi minha mão, meu abraço e até meu beijo. Entreguei-lhe ao caloroso abraço do passado. Eu não sou bom quando amo, e tampouco me importo com as feridas que causo. Dor é a marca de nascença da humanidade, e se tu ainda não consegues respirar sem as palavras dos outros, tu não estás pronto para dançar comigo. Eu bebo porque amo. Mas bebo ainda mais porque desamo."



Eu não sou caso perdido, nem epidemia de pessimismo. Não me acho negativo como acusam. Mas entendo que sintam-se ofendidos pelos meus pontos de vista. Eu não vivo pra agradar as boas vontades. Eu luto pra mostrar outras facetas de nós mesmo. E bem, se eu não puder odiar tudo o que eu quero e amar as coisas ruins, então dane-se essa tal liberdade. Porque eu sei que posso ser amado em cada centímetro das minhas atitudes, e sei mais ainda que posso fazer-te desgostar mais rápido ainda. Eu sei aonde a ferida dói, e é sempre nela que eu quero chegar.



Eu não quero viver mais da mesma peça. O meu objetivo é o improviso. Perder a rota. Se eu quisesse contos de fadas eu viveria pela infância. Eu nadaria pelos lábios que mandam eu gostar. E nem rebelde sou. Eu só amo cada parte das confusões que causo, e mais do que isso, eu perco os sentidos em busca de algo maior.


Ok, eu não sei ao certo o que eu quero, mas ter uma vida planejada com regras e horários na certa que não é. Eu gosto mesmo é do sabor de malte das tardes inconsequentes. De olhos borbulhantes pela primeira aventura. Eu carrego os medos nas costas, e quem vem comigo, está protegido das dores. Eu as trago pra mim. E as trago. E levo.



Não há nada como a primeira vez. Só esse sabor me importa. A primeira vez repetidas vezes. Várias, incontáveis. E se eu puder extrair diversas primeiras vezes de alguém, bem, acho que estarei apaixonado. Porque para amar, eu preciso matar algo que esteja adormecido.





"Uma coisa que tenho aprendido é que as coisas mudam, as pessoas mudam e até mesmo nós, se olharmos pra trás, veremos que já não somos como éramos antes. E acho que tudo isso acontece porque vivemos, não ficamos parados, é nossa história sendo escrita. Deve ser horrível você olhar pra trás e ver que não construiu nada, que não sofreu, não chorou, não sorriu... ver que continua na mesma vida, do mesmo jeito, e na maioria das vezes por medo de fracassar. Acho que o maior covarde é quem age assim, sempre com medo de fracassar."



Dimitri, Desejo.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Décimo: Uma Pessoa a Qual eu Amaria, Se Acreditasse Nessas Coisas...

"Talvez você tenha chegado num ponto muito alto. Onde sua casa queimou sem que você percebesse e as multidões deram vez ao vácuo montanhesco da solidão. Mas as perguntas continuam. Aaahh não, elas nunca param! E mesmo com estas ruínas e pedaços pendurados, você ainda se pergunta se esta é a hora de insistir ou deixar morrer. "


Ele queria uma fórmula, um conceito. Eu inovei todos os ares e respirei por ele, quando mal conseguia por mim mesmo. Agora eu não posso dar dicas, mostrar flechas, entregar-lhe um mapa. Eu já dei mais de mim do que daria pra qualquer um, normalmente. Mas nesse tempo, meu eixo entre a normalidade e o paradigma se confundiu bastante. Eu já nem sei mais o que eu queria. E claro, o porquê. As perguntas, sempre elas. Me paralisam. Me consomem. E no silêncio da ausência de resposta, nossas mãos se desprenderam, e seus olhos perderam o sentido pra mim. Eu o atropelei, antes que me ferisse. Eu não tinha uma segunda chance, não podia errar de novo. Então, ataquei.


Algumas dúvidas do passado devem ser enforcadas, antes que elas retornem. Em alguns momentos até nos iludimos com a possibilidade de reatar e consertar gestos e ações que não foram bem sucedidas. Mas as coisas não têm que dar sempre certo. Não precisam estar corretas. Nem sentido elas precisam ter. E persistir numa má escolha, te leva pra um caminho irremediável. Seja forte! Seja aquilo que você sempre sonhou. Só dessa vez, não dê as costas. Não ignore. Encare. Pela última vez. Dê a pá de areia que esta vida necessita. Afogue esta ansiedade. Beba. Consuma-a. Entre no próximo bar e dê um jeito.
Todas essas palavras que eu gritava, emudeceram enquanto os olhos reabriram pra mim, e as mãos tocaram as minhas, de novo.



Eu comi as rosas mesmo não saboreando-as, me embriaguei de esperanças como nunca tivera feito, e fiz desejos lançados a algo maior, soberano, transcendental. Queria uma voz que me ouvisse. Naturalmente isso me incomodaria. Mas eu quis experimentar a sorte infantil, o contragosto desse duelo com a verdade.



Mas quer saber? Eu sou Clive. Não preciso de jogos, nem de duelos. Não tenho que provar nada, nem a mim mesmo. Deixo que meus medos falem alto, grito, corro, bato, xingo. Sou quente como as lâminas de uma espada que ringem no chão, em plena guerra. Sou aço e rocha. Eu bebo os problemas e os amores. E se duvidar, ainda brindo com um desconhecido antes de devorá-lo. Eu mostro a face da sedução, do convite imprudente, sacana. Eu mordo lábios, e deles nunca mais saio. E se quiseres amor, ache um motivo para gostar de si mesmo, porque eu transbordei minhas fichas na última máquina, peguei um táxi sem dinheiro pra pagar, e ainda consegui uma noitada com o motorista. Porque eu abuso das possibilidades e vejo sexo em quase tudo. Então se você quiser alguém de fato, venha mais perto e lamba meu pescoço, porque hoje eu serei o seu amor e o seu benzinho. Só não espere considerações e um anel de compromisso.


Porque minhas noites são cheias, mas pela manhã minhas palavras são vazias.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Nono - Em Cada Pedra Dessa Rua, Há Um Pouco de Mim


"E naquele momento, quando decidi que não queria mais voltar para casa, percebi que pela primeira vez não tinha tomado essa decisão por ser mimada ou fugir dos relacionamentos que eram importantes. Naquele momento percebi que o objetivo não era "concertar" todos relacionamentos conturbados que eu tinha, e sim apenas seguir em frente. Não ficar remoendo ou tentando remendar as coisas, porque na verdade tudo nessa vida tem a oportunidade certa, e não adianta insistir, pelo contrário, insitir no que não foi é ser masoquista.
Aquilo era sobre eu percebendo que abrir mão de um relacionamento que me fez mal era a prova de que pela primeira vez estava sendo a menina corajosa que sempre quis ser."

Pandora, Desejo.



Gosto deste trecho acima. É de um livro. Muito bom por sinal. Às vezes acho que sou mais um personagem nesta história. Porque o retrato da vida tem vários ângulos, e o livro 'Desejo' dá uma porção deles. Onde eu deveria estar?


Triste melodia carregavam aquelas árvores. Adentrei numa rua coberta por elas. Folhas grandes e vistosas. Abandonadas no silêncio das suas cores. Banhadas pelo sol e a lua, respectivamente. Uniformes. Formavam uma corrente pela qual eu queria ser embebido. Meus passos quase ecoavam por lá. A rua tinha pedras avermelhadas e deformadas. As calçadas tinham bancos acinzentados que na certa assistiram diversas lágrimas e beijos. Telespectadores das vidas que por aqui desfilaram. Eu era o novato. Mãos vazias. Bolsos vazios. Histórias a escrever.


Sentei na beira da calçada. Tinham algumas formigas por perto que marchavam categoricamente em fila. Demorou pouco para que o sol adormecesse. Os últimos raios alaranjados foram uma pintura incomum. Passei a mão pelo cabelo e deitei no banco. A nostalgia me atingiu como um cão que corre para pegar o osso que o dono lançou. Brincadeira boba que os caninos agradecem com um balançar de rabo. Deve ser sarcasmo deles.

Eu me alimento de dor. Mais do que simples quebras de contrato, eu me deleito com o sofrimento. Eu entro nas vidas e as manipulo. Com facilidade. Logo todos jogam o meu jogo. Psicopatia é meu café da manhã favorito. Talvez seja uma dose egocêntrica que eu engulo tão rápido. Só quando protagonizo (ou antagonizo) vidas e histórias, minha alma sossega com paz. Uma paz fajuta, comprada. Mas de que importa? Tenho alma teatral. Construo personagens e facetas, e logo faço uma festa e celebro todos estes temperamentos. É enlouquecedor... Mas foi cada fraqueza que roubei dos labios beijados pelo meu cinismo que foi usada para a construção deste baile de máscaras.


Agora eu seria Clive. A faceta ideal pra lidar com as desilusões e ilusões de desamor. Sou vítima da minha própria distimia. Auto-medico cada batida desse coração obscuro com goles de tequila. Porque a noite é o meu quadro em branco, e cada dia é uma nova inspiração para pintá-lo. Minha aquarela de mentiras é um arsenal infindável. E o último gole vocês assistiram. Vocês jamais saberão a verdade absoluta (se esta existir). Porque só mostro os lados mais rasos do meu mundo. E até onde estariam dispostos a adentrar?



Mas caótico ou supérfluo, o personagem é sempre uma busca por auto-identidade. Ou simplesmente uma atitude desvirtualizada da cena principal. Eu não tenho limites. Atuarei até onde os aplausos me seguirem. Mas para isso, preciso arrancar as partes que ainda me acorrentam ao amadorismo. Porque laços são perdas de tempo artística. Só quando libertar-me do passado poderei nadar pelas correntezas do meu corpo.


O escuro é mais aconchegante. Quando o peso, o tipo de cabelo e as mentiras provavelmente pouco importam. Se não pode ver, não há. Então beberei estas farsas e estes 'amores' quebrados, antes que eles pensem que eu os quero. Porque facilmente eles confundiriam meu sorriso com alegria, bem como um olhar com desejo. Mas não há nada que eles possam me oferecer que eu não consiga arrancar de uma maneira mais brusca. Não quero estes sentimentos pacificados e ofertados. Quero puxar, brigar, pegar à força. Porque será nesse momento hostil que eles me entregarão a verdade. Sangrenta, cruel, como deve ser. Porque no momento eu to preferindo dores e uma garrafa de whisky do meu lado do que esses 'amores eternos' que terminam pela manhã.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Oitavo: Se fosse Apenas uma Carta, Talvez as Lágrimas Calassem

Eis a carta que deixara antes de sair:

"
Perante todos os acontecimentos, eu ainda não me encontro em lugar algum. A vida vai passando, os fatos se repetem. Outros pioram. E raramente algo muda positivamente. Mas talvez altere sim. E mesmo que seja muito mais fácil erguer paredes e muralhas ao redor, isolando-se dos problemas, logo elas sufocam, e tudo o que resta é um novo mundo isolado. Ilhado. E talvez tarde ou não, percebe-se que tu se tornou espectador na sua própria vida. É possível aplaudir pessoas, e baixar a cabeça. As decepções se acumulam. Os problemas crescem. As ilusões te inundam, te inflam. E logo, sem saber nadar nas mentiras criadas por si próprio, te afogam. Sem resgate à vista, tenta-se atitudes questionáveis. Atentados. Uma dose a mais de culpa e medo. Solidão em drink duplo. E por mais que tu queiras companhia, não consegue. Tu és agora um repelente natural às pessoas e à vida. E tua mente tornou-se tão inconstante e inóspita, que o mundo todo perde o sentido. A beleza torna-se algo abstrato (mais do que antes) e os antigos métodos escapistas falham. Tu só queres uma companhia. Alguém pra reclamar da vida, pra cantarolar, mesmo que desafinando, pra abraçar e sentir o aroma das batalhas, os cabelos que tocam teus olhos e as mãos, que carregam a história dos confrontos, dos duelos e das páginas amareladas dos livros. O aroma de baunilha do passado te beija, numa despedida. E mesmo sabendo das dores (que virão), tu ainda desejas ter um laço imaterial e inexplicável com alguém (ou alguéns). Uma parceria confiável, para juntos visitar mundos inabitados e nadar pelas estradas montanhosas da noite. Bastaria um pouco menos de solidão, e talvez a vida se colorisse com sabores e aromas mais amenos. Nem precisaria ser tão real. A fantasia já seria excitante o bastante. Mas agora o pesar no meu peito palpita. As lágrimas emudeceram perante o eco que antes eclodia no meu peito. E todas as piadas perderam a graça. Porque por mais que eu quisesse, implorasse, despisse de véus e armaduras, chorasse, lutasse... Seria tarde. Agora a solidão eterna encontra-se ao meu lado. E nestes olhos velados pelo silêncio adormecerão os contos que jamais foram narrados e as poesias jamais declamadas. É o fim da canção do aprochego. Da esperança.
Os dias findaram. E os sonhos também.



Ps* Perdoe-me pelos possíveis erros ortográficos, e a falta de jeito. Isso tudo deveria ser mais natural e mais fácil, mas agora eu percebo que sou mais do que nunca o Clive. E eu só vejo as coisas ruins."

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Sétimo: Solidão é Minha Amiga, Álcool é Minha Vitamina

Como diria Franz Ferdinand "Este fogo está fora de controle", foi o que pensei. Nem nos meus piores pesadelos me permitiria sentir tal apego. Mas como negar? Ela havia me dado um lar, uma nova chance, coisa que pessoa alguma que me conhecia faria. Só mesmo um abraço estranho não parece culpado e cheio de ganância. Pelo menos nos seus primeiros encontros. Quando as almas colidem, e se estranham e entranham, toda a gama de feromôneos que nós, animais selvagens, carregamos, explodem e implodem numa velocidade e voracidade grotesca. Logo uma análise é feita, como prevenção. Um raio X. Mas mais do que isso, repelimos as frutas podres pra manter o jardim a salvo. E dessa vez, como nas outras, eu me senti a pior das espécies.



Eu não consigo diferenciar coisas boas e ruins. Acho que sou inocente demais pra perceber as ofensas. Ou cruel demais, porque desfiro golpes impiedosos. Sou hostil de natureza, um sobrevivente, como já disse. Mas algo latejou no meu peito, quando abraçado em mim, ele disse que não me abandonaria (mesmo após os acontecidos). Eu gelei. Congelei. E até degelaria se fosse um iceberg fraco. Como pode? Por que ele ainda me abraçaria? O jogo não tava certo. Nessa rodada ele devia surtar, chorar, gritar. Perder as estribeiras e me expulsar. Ou simplesmente abrir a porta. Conheço o caminho da sarjeta. Mas eu fechava os olhos, e as luzes e as músicas explodiam uma sinfonia prateada que parecia formar uma estrada. Eu a renego - pensei.



Fiquei por horas sentado na rua. Na praça. Vendo as pessoas com suas vidas planejadas e estabelecidas sobre planos religiosos, políticos e morais. Cada um do seu jeito, achando que tão fazendo a coisa certa. Mas no final, perdem seus valores mais básicos. Atirando-se à fome superficial do ócio e da futilidade ( Por que todos cheiram a sem-vergonhice ). E não há alma neste mundo que me surpreenda. Mas gosto de entrar nos seus jogos mais íntimos e fingir que estou perdendo. É durante a vitória que as pessoas mostram suas caras. Dê poder a um pobre coitado, e ele ordenará que Deus deve lavar suas botas.



Mas ela havia me resgatado, viu-me no meu instinto mais subhumano. Uma raiva descomunal me dominava. Engoli lágrimas e sequei o suor gelado da testa. Pensava em quantos gritos havia bradado naquele silêncio todo.
Será que isso significa algo? - Pensava. Cada sorriso dela me fazia mais crédulo, e eu perdia as forças. Queria morrer naqueles lábios. E como desejo tal morte...
Ele dizia que sou poeta. Andarilho incorrigível, pois estagnar em lugar , seja uma ponte límpida, ou nos braços de amante qualquer tiraria minha excência. Minha inspiração seria a dor e o abandono. Porque da alegria se tira o óbvio, a mentira. Só mesmo da sofreguidão e do fundo da mágoa e abandono é que se extrai a verdade. A fúria. A vingança.



Doía. É o que minha memória guardou. Um momento em que desejei arrancar parte por parte daquela angústia. Acho que ela sabe demais - conclui.
Mas dor maior é o que desconhecia. O desapego. A libertação. Mas sou interrogado pela vida há anos, hei de suportar nova tarefa. E se não vivo, não sinto.



Na manhã seguinte, ela abraçou o travesseiro, resgatando meu aroma de álcool e juventude. Enquanto lia o bilhete que lhe escrevera. E com essa despedida, teve de sentir-se beijada. Meus lábios, para ela, haviam morrido.

Agora estava longe. Longe dela. Longe dele. E mais próximo de mim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Sexto: Eu Encanto, Seduzo e Estrago Tudo

Sentia-me agora como um rato que passara sua vida entre os esgotos, achando que fazia grande coisa, e de repente encontra uma casa aconchegante e sutilmente se convida pra entrar e ficar. Ainda que camuflado, agindo sob as penumbras. Mas um novo lar é um novo mundo a ser descoberto. Mesmo que sob circunstâncias questionáveis, agora eu era o rato, que não queria mansões ou palcos com holofotes. Tava em busca de uma cabana bem vagabunda. Um quiosque. Um sobrado. Queria só ir entrando, me avizinhando, sem ser notado. Queria ser o rato durante o dia, e à noite o artista.



Foi nessa andança então que a conheci. O vento fazia meu cabelo cobrir os olhos (engraçado como sempre venta pro lado oposto ao do meu cabelo). Eu mal tinha engolido toda aquela fase que se sucedera (acho que nunca engolirei), e já tinha parado num boteco pra ver se a tequila me ajudava a degustá-la. Em vão.


Escorei-me na fronte de uma ponte, não das mais novas ou das mais belas. Não era como um outono de filme hollywoodiano. Mas pontes servem para interligar dois lados de quaisquer coisas. E eu me encontrava bem no meio.Tinha um lago escuro que parecia morto. Estacionado abaixo dela. Eu tentava me reconhecer pelo reflexo.



E lá estava ela. Parecia entender meu olhar, quando os dois colidiram, e quando me abraçava, tocava-me de verdade, como nunca antes sentira. Não tinha dó. Era a bonança que eu precisava pra iluminar toda essa tempestade que eu sou.

Ele deu-me um novo lar e mostrou-me cores e sabores inéditos. Acrescentou aromas únicos aos próximos dias. Algo nas minhas palavras tortas o surpreendia. E quando ele sorria algo em mim doía. Deus, como eu queria aquela dor sempre...



Era a oportunidade que eu precisava (embora não merecesse). Diferente das outras vezes, não queria estragar tudo. Às vezes até sentia algo real. Algo vivo. Mesmo sóbrio, distinto, limpo. Ela me fazia dormir, e acordar com vontade de vê-la. Se eu fosse um dançarino, sapatearia por ela, e ressoaria canções para aquecê-la. Agora, quando fechava os olhos, aquele turbilhão de vozes que me recepcionara na cama, após os acontecidos, havia adormecido.


Mas naquele dia, eu havia reencontrado as armas do passado. E ao chegar em casa e ver-me encolhido ao lado da cama, como ladrão que tenta esconder o furto, ele perdeu o eixo. Achou absurdo, incompreensível. Diferente do que vocês julgarão, eu não atento contra a vida. Acho que eu desafio algo maior. Algo que ainda busco. Algo além desses dias programados. Mas eu era barco sem rota mesmo. Toda a embarcação de raiva, frustração, indiferença e medo que eu carregava era como um trem desgovernado. Cada batida era um novo teste. "Sadomasoquista?", questionaram certa vez. Mas sexo e dor são só um vestígio da vida (ou do fim de semana).


Ao vê-lo entrar no quarto, a lâmina escorreu entre os meus dedos e caiu, ecoando uma catedral de culpa por todo lado. Desviei o olhar. Ele ajoelhou-se e tentou extrair dos meus olhos bronzeados alguma resposta. Acho que o seu castelo desmoronou neste momento. Beijou-me. Tentou abraçar, como um baú que guarda todo o passado numa ilha. Algumas lágrimas petrificaram, mas outras deixei brotar. Não queria ser tão cruel. Tão mal agradecido. Mas um rato é só um rato. Espreitando. Noite e dia. Em mansões e em bueiros. E eu... Vocês sabem, sou só o que o medo impede que sejamos. Sou Clive B.


Ela sussurrou "Eu te amo".
Eu disse "Obrigado".
Ele disse "Por que você faz isso?"
E eu disse "Talvez porque eu seja um suicida bem educado".

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Quinto: Sou Meu Próprio Anti-Herói

Agora, mais do que das outras vezes eu só tinha meu ego trincado e minhas expectativas banhadas com meu orgulho (mesmo ele sendo socado e atingido por uma porção de facadas). E não seria mais uma limitação física que me impediria. Engraçado como eu sou mesmo uma contradição. Nunca gosto de músicas na primeira vez que as escuto, mas depois que torno-me dependente, o mundo todo parece vazio antes dela. E vazio sou.


Às vezes se convencer de mentiras é o suficiente. Porque é preciso convencer-se de ser bonito, ou inteligente para sair na rua sem medo de ser ridicularizado ou visto como um burro qualquer. E até mesmo poetas são alienados, porque a atmosfera deles é alta demais pra que um viciado como eu a alcance. E toda vez que abro os olhos, as nuvens cobrem meu céu, e as estrelas tiram folga.

O fato é: Estava acordado, naquela cama, dados devidos acontecimentos, e nada passava na minha mente. Não me achava estúpido nem arrependido. Detesto mensagens motivacionais. Cada um deve lidar com seus próprios problemas. E eu tava acuado demais pra me mostrar indefeso. Ergui-me então.


Rastejei, sussurrei. Eis minha especialidade. Escorar paredes, observar levantes. Apenas um parasita em si mesmo. Uma imagem meramente ilustrativa do que é a desordem. Do que é a vida, sem palco e sem maquiagem. Tão banal que pedia pra que alguém me esmagasse naquele momento. Mas piedade é uma adaga duplamente feroz. Ela te corta por sua carência mas te corta mais ainda pela sua abundância.


De alguma maneira fui embora. Enquanto todos discutiam porquês e hipóteses parti sem minha mala de mão. Como bagagem apenas um extravio de ideias. Sou digno de pena? Sou louco? Sou cheio de codinomes, sou cheio de setas luminosas. Sou cheio de mim mesmo.


São esses lances da vida que eu questiono. Ambiguidades tão insanas que me excitam. Como uma dor que me faz sorrir, ou uma sede devastadora de culpa. Auto-piedade. Dó que eu renego das pessoas. Mas que aceito de bom grato da minha consciência.

Eu sou desgraçado de humor. Não faço piadas, tampouco construo edifícios. Me contento em ficar no meu quarto, consertando coisas, ou simplesmente ajudando a destruí-las.
Não sou protagonista na minha história. O mundo que é. E basta observar (além de só olhar).


Mas agora eu tava livre desse mundo de mansões e arranha-céus. Eu podia ser um monge se raspasse o cabelo, um punk se aderisse ao anarquismo, um homossexual se beijasse-me mais no espelho, um ladrão se roubasse algo além de tempo, um heterossexual se fechasse as portas pro mundo não me alcançar, ou simplesmente um cachorro, e continuar latindo, e continuar coçando.

Eu precisava de um lar. Eu precisava de um subúrbio.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Eu sou... Clive B. Capítulo Quarto: Embriagado Para o Início

Se eu fosse um cronista talvez confundisse as pessoas com mais facilidade. É que as ações e futuras reações que são como pedras jogadas numa lagoa, não tem data marcada. Não são previsíveis. Então na véspera do dia 12, lá estava prestes a desenhar uma nova faixa atemporal.


Eu corri. Escondi-me. Pensei ter fugido. Na verdade quando a adrenalina borbulhou até o meu córtex cerebral eu já tinha tomado todas ... As atitudes precipitadas e descabidas que eu poderia imaginar. Foi um estardalhaço. Uma zona de guerra.
Eu disse, no início, que era um soldado refugiado de uma guerra. Mentira. Nunca travei batalha alguma. Sou um desordeiro quase apaziguador. É tão deprimente ser um trovão guardado no bolso, que eu preferia explodir agora. E talvez tudo fizesse algum novo sentido.


Eu queria ter crescido construindo sonhos e cultivando novas imagens inesperadas -- Bem, talvez criando essa mentira um dia talvez eu me convença.


Eu havia perdido. Fui derrotado pela falta de força. Fraqueza é pouco! Sou tão incerto quanto um vagalume bêbado e sem luz. Meus prismas sempre foram invertidos, e quando dei conta, subi os 12 andares tão rápido, que cheguei ao topo caçando oxigênio nas luzes de lá de cima. Joguei-me ao chão e engatinhei, até o parapeito. Eis a ponte dourada que eu sonharia. Traguei mais oxigênio e raiva. Era como um combustível. De olhos fechados as lembranças eclodiam. De olhos abertos, as luzes me hipnotizavam e convidavam para uma dança aromática. Lá de cima me sentia forte, seguro. Mas logo o líquido vermelho que nos une por laços humanos escorria através do meu pulso direito. Banhei-me de glórias, enfim.


Eu disse "eu perdi tudo". Mas que tudo? Jamais havia tido metade de qualquer coisa. Não cultivei uma porção de coisa alguma. Não chorei por dores, não sorri por amores. Era um cão que apenas ladrava, correndo atrás dos carros. Mas se um carro, um dia parasse, eu não saberia o que fazer.
Agora já com o tal fluido rubro banhando e tingindo minha coerência, arriscaria pensar em arrependimento. Mas arrepender de que? Eu pedi para que ele agarrasse-me e não soltasse. E se por ventura soltasse, que levasse embora junto meu ar. E assim o fez.


Tonteei. Sentei. Cabeça baixa, vendo pingar gotas do tempo que minha testa carregavam. Olhei ao redor como uma criança que procura ter certeza de que está sozinha para aprontar alguma. E sozinho estava. Como de costume. Como reconforto. Véspera e dia formaram uma simbiose assintomática na minha consciência, e tudo passou-se depressa. Tão logo.


Recordações, como fotografias me estamparam. De um ontem ilimitado. Garrafas que bebi, desamores que bebi, laços e entrelaços rompidos, inexistentes. O cão se achava bom porque tinha a melhor rua. Mas o cão era apenas um qualquer, que corria como vira-lata, e cheirava como vira-lata. Vítima de si mesmo.


Foi então que após flertar com todos esses espectros (nisso eu era bom), aceitei o pedido, e saltei para a pista de dança, onde o sangue agora parecia mais real, e anestesiava antebraço, ombro e visão. Eu era um cão vagabundo, um dançarino poligâmico, um soldado no exílio e um órfão da vida. Era, agora, Clive B.